Boi 777, um método que acelera a matança de bovinos no Brasil

Sistema criado em São Paulo faz com que um boi ganhe peso em tempo recorde e seja enviado mais rápido para o abate

(Foto: Animals International)

Um método que tem sido cada vez mais utilizado por criadores de gado no Brasil, e está crescendo em popularidade em estados como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rondônia, São Paulo e Tocantins, é o Boi 777, que permite acelerar a matança de bovinos.

O método, desenvolvido pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo (SAA) e pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), faz com que um boi ganhe peso em tempo recorde e seja enviado mais rápido para o abate.

Enquanto a partir de outros métodos mais convencionais um boi leva até três anos para atingir 18 arrobas, com o Boi 777 é possível chegar a 21 arrobas em menos de dois anos.

O número 777 é uma referência ao fato de que esse método condiciona o animal a ganhar sete arrobas em cada uma das três “fases comerciais” de sua vida – desmame, recria e engorda/terminação – também identificada como fase de “acabamento da carcaça”.

Mais mortes em menos tempo

A crescente popularidade do sistema tem relação com a sua premissa que é “produzir mais em menos tempo”. Ou seja, é mais uma prática que contribui para elevar o número de bovinos abatidos no país, e que a partir desse método viverão ainda menos, depois de condicionados a ganharem muito mais peso do que jamais ganhariam no mesmo período no sistema convencional.

Métodos como o Boi 777 reforçam a crença de que animais são apenas produtos disponíveis aos nossos interesses de lucro e consumo. Ainda assim, esse tipo de método é promovido como “alternativa sustentável”, sob a alegação de que um animal viver menos para virar alimento gera “menos impacto ambiental”.

Mas como isso pode fazer sentido se esse sistema incentiva uma criação muito maior de animais em relação à atual em um curto período de tempo? Além disso, prevê maiores demandas em relação à alimentação desses animais, o que sabemos que também favorece mais impacto e mais emissões de gases de efeito estufa em um país que já tem um rebanho comercial que supera sua população humana – são 214,7 milhões de bovinos e 212 milhões de pessoas.

A não ser que o rebanho estivesse diminuindo no país, e não aumentando, como vem ocorrendo a cada ano, um sistema como esse que diz ser sustentável, sob a justificativa de garantir que mais animais vivam menos e sejam reduzidos a alimentos mais rápido, é mais do que questionável. Afinal, há uma indução à ampliação do rebanho e maior demanda de recursos em menos tempo, ainda que esses animais tenham vidas mais curtas.

Consumidores precisam ponderar a respeito

Acredito que cabe uma simplificação. Não seria muito mais fácil beneficiar o meio ambiente não criando esses animais com finalidade de consumo? Qualquer método colocado em prática tende a continuar gerando um preocupante impacto.

Se o rebanho cresce e é criado em sistema extensivo, que é o mais usual no Brasil, isso significa que continuará havendo grande demanda por pasto, e isto em um país onde a maior parte das áreas agrícolas já estão dominadas pela agropecuária. Isso é coerente, considerando que o Brasil já pouco se preocupa com o impacto do desmatamento?

Não tenho dúvida de que a única forma de forçar uma desaceleração em prol da sustentabilidade e do bem-estar animal é deixando de comprar produtos resultantes do abate de animais. Afinal, quanto mais os consumidores compram, mais os pecuaristas e a indústria da carne são estimulados a adotarem novos sistemas que exigirão mais do meio ambiente e/ou dos animais, ainda que pareça o oposto.

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