Enquanto a população humana no Brasil é de 213,3 milhões, o rebanho bovino do país chegou a 218,2 milhões, de acordo com um levantamento concluído pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no final de setembro.
Ou seja, há 4,9 milhões de bovinos a mais do que humanos. É um número surpreendente, considerando a associação da criação de gado com o impacto ambiental da pecuária em um país onde um boi ocupa, em média, um hectare.
Enquanto o abate de um bovino com peso variável de 18 a 21 arrobas gera 270 a 315 quilos de carne, em um hectare há sistemas agroflorestais que podem proporcionar até 80 mil quilos de vegetais.
Além disso, o IBGE revelou em 2017 que o Brasil já contava com mais de 350 milhões de hectares ocupados pela agropecuária – mais de 40% do território brasileiro.
Isso leva em conta muito mais do que as áreas classificadas como agricultáveis, que são predominantemente ocupadas para a criação de gado e produção de grãos para alimentar animais criados e abatidos para consumo – o que inclui também aves e suínos.
Hoje, em 2021, o maior destaque brasileiro em criação de gado é São Félix do Xingu (PA), que tem um rebanho de 2,4 milhões de bovinos e é um dos municípios que liderou o desmatamento na região amazônica em 2020, logo atrás de Altamira (PA).
Não é novidade que o crescimento da pecuária, além de depender de maior uso de terra, o que significa mais desmatamento, promove uma grande subutilização do solo. Afinal, destina grandes áreas somente para pastagens. E em consequência disso surge outro problema comum que é a degradação do solo.
Uma estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que em 25 anos a degradação do solo pode reduzir a produção mundial de alimentos em até 12% e levar a um aumento global do preço dos alimentos de até 30%.
É um cenário preocupante, já que a população até lá pode chegar a nove bilhões. E como ignorar o impacto disso associado à pecuária se esta ocupa a maior parte das áreas agricultáveis?
Segundo a Embrapa, só na Amazônia Legal cerca de 40% das pastagens estão degradadas ou em processo de degradação. Isso é mais uma prova de que a agropecuária não tem apenas derrubado a mata nativa, prejudicado a biodiversidade e contribuído com emissões de gases do efeito estufa no Brasil, mas também danificado o solo, inclusive o tornando pobre e até mesmo improdutivo.
É importante frisar também que um gás de efeito estufa como o metano, 28 vezes mais potente do que o dióxido de carbono, e produzido como parte do processo digestivo dos ruminantes, pode chegar a 100 quilos por animal/ano. Agora imagine o impacto anual disso no meio ambiente quando falamos de um rebanho de 213,3 milhões.
Como o Brasil espera reduzir suas emissões enquanto o rebanho bovino cresce? Como desacelerar o desmatamento quando o cenário é de incentivo a uma maior criação de animais? Afinal, se não houvesse, o rebanho diminuiria. Sem dúvida, o custo do consumo de carne é muito maior do que aquele que o consumidor paga no açougue. Há uma série de implicações ainda ignoradas em relação à cadeia produtiva, e quanto menor a consideração, mais crescem os riscos.
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