Caminhão do matadouro parou e porquinho saltou fora

Se enfiou num matagal de beira de estrada e esperou caminhão desaparecer

Matadouro? Bacon? Hoje não, senhor! (Foto: Pixabay)

Caminhão parou no semáforo e porquinho saltou fora. Matadouro? Bacon? Hoje não, senhor! Rolou no asfalto quente. Desviou de um, dois, três carros. Se enfiou num matagal de beira de estrada e esperou caminhão desaparecer. Jejum da morte. Boquinha seca. Viu poça d’água e tibum. Sede, sede. Engoliu água como se a boca fosse o corpo todo.

Deitou na relva e rolou de um lado pro outro e vice-versa. Ofegava, queria relaxar, coração não parava de rufar. Medo da ronda da morte. “Voltar pra caixa de concreto?” Não, senhor! Olho igual da gente titubeava, transitava. Não sabia o que esperar, experiência com a humanidade não era de agradar. Coçou dorso ralado na grama e levantou.

Bora, bora. Cansaço, sono e fome. Se capotar? Poderia não acordar. Melhor não arriscar. Nada de panela, tacho ou frigideira. Mancava, e a cada voz ou som de motor que vinha da estrada e roncava era o coração não humano que acelerava. Não queria morrer, só desaparecer. Medo de sofrer. Atravessou trilho enlameado e alguém gritou: “É carne!”

Tilintar de facas. Desespero. Hora de cruzar estrada. Desviou de um, dois, três, quatro carros. Se enfiou noutro matagal. Do lado, painel gigante com porquinho sorridente: “Bacon na chapa (à vontade) todo sábado.” Perninha tremeu. “Poderia ser eu.” Correu tanto que caiu de ribanceira e rolou. Bateu em coqueiro e capotou. Doía e dormia, dormia e doía.

Acordou assustado, arroxeado, nada quebrado. Alguém se aproximou, não se assustou. Três, quatro porquinhos. Cadeia social. Empurravam coco com focinho. Entendia. Tempo se diluía, não só assistia como aprendia. Família. Sol que esquentava pele estourava cocos que comia. Era só rolar na direção certa, onde humanidade não descia.

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