O peixe que pescou o homem

Ilustração: Roger Olmos

Lançou o anzol na água e sorriu. “É hoje que é hoje que é hoje…e é mesmo. Vem peixe! Quem duvida? Não duvide!” Em minutos, sentiu fisgada e sandaliou, esfregando um pé noutro. “Agora é puxar e comemorar!”

Fazia força e nada, fazia força e nada. Agora vai, e foi. Do rio, voou uma pedra na testa e caiu pra trás, roçando a cabeça numa figueira-do-diabo que quase furou-lhe o olho – fazendo furinho no cantinho. Problema, um só: “Como isso veio parar aqui? Ó, cadê sentido?”

Sentiu o sol queimar o couro da testa. Ou era a pedra? “Foco! Foco! Foco!” Levantou e jogou outra isca viva na água. Só queria mordiscadinha. Ninguém mordeu, e um dourado também lançou o seu – um anzol sem nada. Não queria enganar.

Acertou o homem em cheio, onde o couro é mais resistente, e o puxou para a água. Mergulhava e emergia, e mergulhava e emergia, e o homem gritava, berrava. O que dizia ou não dizia? Depende. Com a boca cheia d’água ou esvaziada? Não, o peixe não parava.

Pedia compaixão ao peixe, e o peixe não respondia. Não entendia. É mesmo? Aquilo não era forma peixiana de sofrer. Dor, onde? Incômodo, onde? Que era aquilo? Ou não era?

Só barulho e mais nada, porque deve ser nada. Já ia enchendo com tanta água. Lacrimejar não fazia diferença porque molhado com molhado é só molhado.

Que tal sofrer sem sofrer? Ou não sofrer sofrendo? “Como fazer-me entender?” Começou a se debater na água, estirando os pés juntos, com as pontas mirando oposto, como se fossem cauda. Não adiantou. “Peixei sem peixar”, disse antes de afogar pela última vez, com olhos inchados e doloridos.

Então o peixe enjoou – ou não. Só soltou o homem e rumou em direção oposta. Outro sujeito já lançava um anzol. É agora, e depois, depois e depois…e continue. Sim, continue.

 

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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