Por que frangos e peixes mortos não geram desconforto?

Observar esses animais amontoados em freezers é um convite também à reflexão sobre o papel cumulativo da morte em nossas vidas, em nosso cotidiano, e na sua normalização e romantização resultante de um cultural alheamento

Fotos: Aitor Garmendia/Tras Los Muros/Selene Magnolia

Frangos e peixes são animais que as pessoas não veem problema em comprá-los inteiros para comer. Claro, o frango vem sem cabeça e pés (que costumam ser vendidos separados), mas não deixa de ser mais fácil sua identificação com um animal morto.

Por exemplo, posso ficar diante de um freezer no mercado e dizer: “Veja, um frango morto!” Ninguém achará absurdo. Talvez achem estranha a minha observação por não estarem acostumados a esse tipo de apontamento.

Mas se faço isso diante de um pedaço de carne bovina ou de um pedaço de porco no mercado, é mais fácil acharem que tem algo de errado comigo, quando na realidade é exatamente o oposto, já que estou apenas exercitando obviedade – partindo da parte que leva à ponderação do todo.

As pessoas sentem-se melindradas com esse tipo de observação, porque não gostam de associar algo vendido como alimento com a morte. Mas não é da cessação da vida que vem o produto? Carne é um pedaço de carcaça resultante de uma sequência de violações contra um corpo que passa pela supressão total da vitalidade.

Ademais, reconheço um “incômodo menor” em relação a animais inteiros e menores que são abatidos. Uma carcaça grande de um boi, por exemplo, ou de um porco, pode causar rápida má impressão no consumidor, uma sensação desagradável, talvez por associação mais fácil com o abate ao ver um corpo inteiro, que ocupa grande espaço, pendurado por ganchos.

É uma reação que já foi explorada por barrocos e impressionistas como Rembrandt e Lovis Corinth. É como se o impacto se associasse à dimensão – como se houvesse uma extensão maior de morte, e uma maior possibilidade de profundidade em relação a um grande corpo ausente de qualquer sinal de vida. Isso não acontece em relação a um freezer cheio de frangos ou de peixes. Se os frangos tivessem cabeças, ainda acredito que a mudança não seria tão significativa, embora pudesse ser.

Os peixes, muitos deles vendidos com olhos estufados na cabeça gelada ou congelada, se você olhar bem, não há como negar que têm aspecto desagradável. Talvez pareça tolo, insignificante, mas não é se a observação é feita sem indisposição. Não há beleza num peixe morto, e quem diz que sim é porque o que vê não é o peixe, e sim uma ideia que se tem do que ele não é, que surge por uma vontade associada à romantização do desejo.

Já perguntei-me algumas vezes qual foi a última coisa que aqueles olhos nos freezers miraram, e se mexeram em suas bocas ou se a expressão representa fielmente a asfixia que pôs fim às suas vidas. A cauda também move-se bastante antes da morte, e quando embalado inteiro há quem prefira cortá-la e descartá-la.

Observar esses animais amontoados em freezers é um convite também à reflexão sobre o papel cumulativo da morte em nossas vidas, em nosso cotidiano, e na sua normalização e romantização resultante de um cultural alheamento.

No supermercado, quando as pessoas retiram animais pequenos dos freezers, por exemplo, como frangos e peixes, reconheço dois tipos de ausência – do animal não humano e do animal humano – e as duas são obliterativas. A primeira por imposição e a segunda por escolha.

 

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