Como a produção de soja é financiada por quem come carne

Embora a soja tenha uma aplicação bastante diversa na indústria alimentícia, sua produção se concentra na nutrição animal

Soja vira ração para bovinos (também na produção leiteira), suínos e aves (Fotos: Pixabay/USB)

Quando se fala em soja, é muito comum uma associação com quem não consome carne, como se a maior parte da produção mundial da leguminosa fosse destinada a alimentar seres humanos.

Embora a soja tenha uma aplicação bastante diversa na indústria alimentícia, incluindo produtos que os consumidores não têm a mínima ideia que trazem soja na composição, sua produção se concentra na nutrição animal, ou seja, na pecuária, que responde por percentuais que podem variar de 70 a 79% do total.

A organização WWF-Brasil aponta um percentual de 79%, enquanto a Union of Concerned Scientists (UCUSA), vinculada ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT em inglês), sustenta que de 70 a 75% da soja vira ração para bovinos, suínos, aves e peixes criados em cativeiro. Ou seja, animais engordados para abate e consumo.

A WWF-Brasil diz que 18% da soja vira óleo. Por outro lado, a UCUSA aponta que apenas 6% da soja produzida hoje no mundo é utilizada diretamente na alimentação humana.

Mas então o que acontece com o restante? Por que essa diferença? O óleo de soja, por exemplo, não se resume ao que usamos na cozinha, já que sua produção também está associada à indústria de biodiesel.

Realidade da soja no Brasil

Segundo informações da Agência Agrosaber, no Brasil ninguém come diretamente a produção de 123 milhões de toneladas de soja por ano, mas come carnes de boi, de frango e de suínos.

“Grande parte dessa produção é convertida em ração, que promove toda uma cadeia de produção”, destaca. Ou seja, é o consumo de animais que financia essa elevada produção. Então quem menos contribui é quem não consome alimentos de origem animal, ainda que tenha na sua dieta alimentos à base de soja.

Afinal, um ser humano é incapaz de consumir em um dia a mesma quantidade de derivados da leguminosa do que um boi, por exemplo, já que um bovino pode ter na sua dieta até três quilos diários de soja a partir do seu farelo. E essa ingestão se estende às vacas leiteiras. Logo o consumo de leite também financia esse sistema.

Conforme dados da Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja), 49% da soja brasileira é processada – 79% vira farelo e 21% vira óleo (“de cozinha” e para a indústria de biodiesel). Já 44% dos grãos in natura são enviados para exportação e também serão utilizados para atender principalmente a demanda agropecuária. Os 7% restantes ficam em estoque para finalidades diversas.

Impacto ambiental, leite e megaprodução

Esses números são o suficiente para concluirmos que não faz sentido associar o grande consumo de soja com a alimentação humana, já que uma pequena parte tem essa finalidade, e no país a grande produção da leguminosa não existiria se não fosse para alimentar animais criados para consumo.

Sendo assim, quando falamos também em desmatamento decorrente não apenas da formação de pastagens para criação de gado, mas também de cultivo de soja, como ocorre na Amazônia, no Cerrado e em outros biomas brasileiros, a relação mais adequada é com a agropecuária e as indústrias de carnes e laticínios, já que vacas leiteiras também consomem o farelo de soja.

É válido considerar que além do impacto ambiental cada vez mais associado à produção e consumo de alimentos de origem animal, uma estimativa da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) aponta que o mundo produz hoje mais de 2,74 bilhões de toneladas de grãos e essa quantidade seria o suficiente para alimentar a população mundial.

E o Brasil, assim como EUA, China, Índia e Indonésia, é um dos maiores produtores – ocupa a terceira posição. Por outro lado, temos hoje cerca de um bilhão de pessoas passando fome no mundo. Mas como isso pode ser possível? Porque os grãos mais produzidos hoje não são cultivados para alimentar seres humanos, mas sim para nutrir animais que serão abatidos e terão suas carnes consumidas por quem tem condições de comprá-las.

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