Como não se importar com a dor dos animais?

Quem diz não se importar com os animais, quando pensa em consumo, tem uma percepção de animais ou de não animais?

Foto: Andrew Skowron

Alguém diz que não se importa com a dor dos animais, que isso não estimula nenhum desconforto ou desejo de mudança, portanto, não sente-se motivado em deixar de alimentar-se deles. Tal percepção não é tão rara. Claro que posso dizer que, por outro lado, muitas pessoas são mais suscetíveis a uma mudança quando não apenas sabem que os animais morrem como racionalizam com alguma profundidade o que isso significa.

Afinal, sabemos que saber pode não ser suficiente, mas sim que tipo de impacto esse saber proporciona em nossa percepção e consciência. Então posso dizer que a pessoa do primeiro exemplo jamais mudará? Nada pode motivá-la a rever esse hábito que considera mais importante do que a não morte e o não sofrimento que vitima tantos animais pela predominância de interesses prescindíveis?

É mais usual resumir isso a uma questão de “insensibilidade”, se pensamos na indisposição em relação ao “outro”, não humano, que tende a ser tão congenial quanto iterativa em sua rejeição que podemos entender como “pouco racionalizada”.

Porém, a “insensibilidade” também pode ser efeito de uma construção social e, não podendo ser resumida à inerente, tem uma complexidade bastante ampla quando considerados sistema e contexto em que as pessoas comem animais e o que as mantêm comendo.

Mas então alguém pode alegar que se a pessoa sabe que alimentar-se de animais é uma imposição indissociável da subjugação e morte de um animal, como consequência primária ou secundária, por que ela não muda? Como afirmar que não é apenas a “insensibilidade”, como se pura e objetiva pudesse ser? Numa ideação de ausência direcionada, imanente e automática de empatia.

José Oiticica definiu há mais de 100 anos o consumo de animais como um vício social. Se concordamos com ele, podemos concluir hoje, mais em nosso tempo do que no dele, quando esse consumo tornou-se muito mais habitual, com uma grande oferta de produtos animais que não existia em sua época, que esse vício, também visto, e mais usualmente, como hábito, necessidade ou predileção, ou uma combinação de dois ou três, tem o poder, pelo papel que exerce no cotidiano humano de levar a uma “artificialização da realidade”.

Quero dizer, o meu interesse, tendo eu ou não condições de consumir tudo que quero de origem animal, já é imperativo a partir do momento em que acredito que minha alimentação é como um tipo de “não alimentação” se nela não há animais ou produtos de origem animal, o que é reforçado pelo vício social, que associa-se também à ideia de que a própria socialização não é também socialização se a partir dela não compartilhamos nossos vícios sociais – algo que podemos perceber em diferentes classes sociais, mas historicamente pré-determinado pelas mais privilegiadas.

Então há um interesse, que para quem está imerso nessa realidade, e a defende, é também necessidade, de partilha humana do que não é humano. Se nossa realidade é uma imersão em um vício social que não reconhecemos dessa forma, e podemos alegar que podemos “não comer isso ou aquilo” ou “que nem podemos comer isso ou aquilo”, e estamos sempre, de maneira diversa ou não, enaltecendo o amplo sistema hegemônico de produtificação animal, transitando entre valores e desvalores, e fora dele não me reconheço, como posso reconhecer aquele que está fora e que não sou?

Agora volto à questão inicial da pessoa que posso chamar de “insensível”, e que encontra-se no que citei antes como “artificialização da realidade”, que é termo vinculado à ideia de que rejeita-se ostensivamente realidades e experiências concretas que não são suas porque a estas não são atribuídos valores que demandem mutabilidade.

Mas então onde está sua consciência e não insensibilidade? Também nas possibilidades de desconstrução do ser social, se o ato de comer é também validado pelo ato de ser e estar. Uma pessoa que alimenta-se de animais e afirma que nunca mudará garante esse discurso no momento em que o emite, mas não pode ter certeza sobre isso por toda a vida, porque não pode determinar controle sobre todos os processos que envolvem sua existência.

Claro, a defesa passional do consumo de produtos de origem animal é comum por parte de quem tem maior poder de dissociação e estranhamento em relação aos animais, e mesmo quando lida com eles, porque estar próximo pode não ser estar perto, se há fronteiras como barreiras, estabelecidas que não crio, mas defendo entre “o eu” e “o outro”; e que também garantem a manutenção do que posso chamar de “insensibilidade”, ainda que não seja só isso.

Há uma reflexão que considero básica: “Quem diz não se importar com os animais, quando pensa em consumo, tem uma percepção de animais ou de não animais? Porque se os comemos, não é porque não os reconhecemos como animais? Afinal, se os reconhecêssemos, comeríamos?”

Ademais, em um mundo em transformação, e onde o que identificamos como necessidade ou predileção mostra-se cada vez mais como algo superável, não podemos falar em impossibilidade de mudança sobre tal consumo, assim como alguém poderia ter dito o mesmo em relação a outros hábitos e imperativos humanos deixados por tantos que celebravam suas resistências em um passado distante.

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