Como o mundo seria diferente com mais empatia por outras espécies

Pintura: Hartmut Kiewert

“Como o mundo seria diferente se um dia a empatia por outras espécies habitasse cada ser humano. Imagine uma população global humana não rejeitando o respeito ao que não é humano, entendendo que é injustificável exercer domínio sobre outro por estranhos prazeres nossos tão caros a eles. E não somente isto, porque entender não basta, mas reprovando-a.”

Desejou um mundo distante de dores desnecessárias, de sofrimentos impostos pela conveniência da impercepção e da manipulação. “Respeitando quem julgamos diferente, o quanto seria mais fácil respeitar um semelhante? Imagino agora mesmo todas as supostas necessidades sendo vencidas pela verdade e rejeitadas por vontade que aquece o coração e o renova, porque viver doutra maneira é renovar o nosso próprio espírito para uma libertação que não é nossa, mas estende-se a todos nós.”

De sua janela, e num vislumbre simbólico, enxergou uma maneira de viver celebrada por nova humanidade.

“O que estimula numa consciência e num coração o anseio pela não violência contra criaturas vulneráveis? Já não vistas como objetivo ao paladar e tantas outras coisas mais a que destinamos a matéria antes habitada por suas vidas, onde movimentos, corações, olhos e vontades manifestam-se o tempo todo? Porque viver é ter vontade o tempo todo, até de coisas que possam parecer-nos insignificantes.”

Imaginou um animal num espaço para deitar, refrescar-se, interagir com outros, afastar-se de outros, e não precisar temer pela própria vida numa iminência previsível de violência que resulta em sua terminação para apreço de outro. Desejou o fim das intenções de trazer-lhes à vida para a servidão.

“Sonho com este mundo onde tudo que é realmente importante possa esmagar nossas mesquinharias, ganâncias e prazeres que vêm dos desprazeres de outros. Que todo o treinamento e aptidão para cegar-se à importância do que julgamos que não diz respeito a nós se transforme em luz, clareando nossas consequências e, trazendo dentro de nós a urgência de miná-las, mudando vidas. Como seria maravilhoso estar diante desta janela com a certeza de que ali fora já não há anuência a este tipo de violência.”

Levou as mãos à cabeça, fechou os olhos, inspirou e respirou.

“Há tanta vida neste mundo, e tanta dor, tanto sofrimento. Há aqueles do tipo que não podemos controlar, claro, mas e quanto aos outros que reconhecemos que somos suas próprias causas? Quando temos conhecimento do mal que causamos, não é quando dizemos que é hora de mudar? Ou devemos multiplicar a dor e o sofrimento que geramos por intenção e prazer? É tão fácil dizer agora que o sofrimento dos animais vem da industrialização de suas vidas e mortes, e atribuir total responsabilidade a esta e toda a cadeia que a sustenta.”

Enquanto via do alto pessoas empurrando carrinhos para fora de um supermercado, continuou:

“Mas como pode existir tal cadeia sem muitas pessoas para financiá-la? E não são tais pessoas consumidores? E o que são consumidores? Não são aqueles que sustentam toda uma produção pela regularidade de consumo? E só esta regularidade mantém este sistema ativo. Agora se nos dispomos a gerar ruídos, porque entendo que cada um de nós geramos ruídos quando rejeitamos o que nos foi ofertado e nos vemos em condição de manifestar explícita posição sobre tal recusa, podemos multiplicá-los e fazer com que gerem volume muito maior de questionamentos, transformando muitas realidades, até que possamos chegar a uma realidade maior de transição.”

De repente, silenciou por alguns segundos, manteve expressão séria e sorriu.

“Não é preciso que todas as pessoas do mundo reconheçam a importância de estender empatia ao que não é humano, mas se a maioria chegar lá, sabe o que pode mudar? E, de sua janela, assistiu animais de diferentes espécies criados para consumo percorrendo as ruas sem o incômodo da humanidade, até desaparecerem. “E lá vão eles, e irão, sei que irão…”

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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