Como o romantismo influenciou o veganismo

Estudando a relação do ser humano com a carne, Shelley percebeu que comer animais não representava apenas uma opção nutricional, mas também a legitimação e naturalização da crueldade, tirania e escravidão dos animais (Arte: Bodleian Libraries)

O romantismo ajudou a sedimentar o vegetarianismo moderno e o veganismo no mundo ocidental. E não por acaso, já que os escritores da Era Romântica argumentavam a favor de uma dieta isenta de ingredientes de origem animal, levando em conta o estado da humanidade, a saúde e os direitos animais, a economia e a divisão de classes sociais.

Acredita-se que o aforismo “você é o que você come”, tão divulgado de forma equivocada nos séculos 20 e 21, foi criado pelos românticos na defesa do vegetarianismo, ao ponderarem que tudo que serve de alimento ao ser humano tem implicações físicas e morais. De acordo com o escritor britânico Percy Bysshe Shelley, um dos precursores do veganismo, o consumo de carne não apenas “profanou” o corpo humano, mas também encorajou o consumo excessivo de álcool e a adoção de outros hábitos destrutivos.

“Acredito que a depravação da natureza física e moral do ser humano originou-se com seus hábitos não naturais de vida”, escreveu Shelley em A Vindication of Natural Diet, publicado em 1813. Na obra, ele afirma que o homem “naturalmente saudável” foi comprometido pela sociedade moderna. “Um corpo tornado doente por uma sociedade doente”, alegou.

Estudando a relação do ser humano com a carne, o escritor percebeu que o consumo de animais não representava apenas uma opção nutricional, mas também a legitimação e naturalização da crueldade, tirania e escravidão dos animais. Se não temos qualquer direito sobre seus corpos, como podemos nos colocar em posição de destruí-los? Não há nenhum tipo de permissão, nem mesmo sobre pardais que povoam os céus ou sobre os peixes mais modestos que habitam os rios – defendiam.

Consumo moralmente errado 

No século 19, médicos e cientistas que apoiavam os românticos descobriram que a anatomia humana era muito semelhante a animal, principalmente no que diz respeito à senciência e às respostas emocionais. Isso ajudou a reforçar o discurso de que o consumo de animais era moralmente errado. Sendo assim, o ser humano deveria ater-se à dieta de base vegetal.

O escritor inglês e ensaísta Joseph Ritson também pesquisou e opinou sobre o tema. Ele registrou que os dentes e os intestinos do homem são muito parecidos com os dos animais frugívoros, “portanto ele não deve consumir carne”. A existência de caninos curtos e a falta de garras também foram usados para contestar a ideia de que o homem é um predador ou caçador natural, considerando que ele não possui capacidades físicas para matar um animal sem usar as ferramentas apropriadas. “Além disso, o comprimento de seu intestino faz com que a digestão da carne seja muito difícil”, justificou Ritson em An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, publicado em 1802.

O médico escocês George Cheyne, proeminente figura da medicina nos séculos 17 e 18, ajudou a fundamentar a defesa do vegetarianismo na Era Romântica ao defender que o surgimento de doenças e a queda da longevidade estavam relacionados à opulenta incorporação da carne na alimentação. Para os românticos, a decadência humana começou a partir do momento que o homem fez do consumo de carne um hábito, negando-se a aceitar o fato de que os primeiros humanos tinham uma alimentação próxima da dieta vegetariana.

E como consequência, as doenças atingiram tanto a humanidade quanto os outros seres vivos sencientes. Muitos animais foram diagnosticados pela primeira vez com enfermidades que surgiram com a crescente oferta e demanda de carne. O agravante foi o confinamento de animais em fazendas, tornando-os condutores de doenças que espalhavam-se para outros animais. Até mesmo a comida servida a eles, desde o princípio, era uma facilitadora da proliferação de doenças.

“Ele é um homem de paixões violentas, de olhos vermelhos”

Então os românticos fizeram da arte, da filosofia e da política um instrumento de conscientização contra a natureza opressiva humana – algo que deu origem a uma dieta considerada cruel e brutal que até hoje o afasta de seu verdadeiro papel em relação à natureza. Os vegetarianos do romantismo também foram os primeiros a se preocuparem com o meio ambiente no Ocidente, despertando uma consciência muito próxima da atual. Entendiam que o consumo de carne afetaria cada vez mais a natureza conforme a demanda crescia.

Shelley argumentava que a quantidade de matéria vegetal nutritiva utilizada na engorda do gado poderia alimentar dez vezes mais pessoas se os vegetais usados em sua nutrição fossem destinados às pessoas. Logo a criação de animais para o abate era um desperdício e um assalto à relação entre a capacidade da natureza de fornecer alimentos e o desmedido desejo do homem em explorá-la sem ponderar critérios ambientais.

Em An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, Ritson afirma que é tão antinatural ao homem o consumo de carne que chega a ser impossível não incitar nele nenhum tipo de ferocidade. Os românticos se preocupavam com o embrutecimento humano, o distanciamento em relação às suas origens; até porque uma das principais características do romantismo era a evocação do passado, incluindo a defesa da natureza, da vida e da imaginação.

“Ele é um homem de paixões violentas, de olhos vermelhos e veias inchadas, que sozinho consegue empunhar a faca do assassinato”, escreveu Shelley em A Vindication of Natural Diet, em referência à prática selvagem e fisiologicamente conflituosa do derramamento de sangue. E ao contrário do que muitos acreditam, os românticos voltavam sua atenção às classes mais desfavorecidas – tanto que o vegetarianismo era uma forma de resistência à cultura do luxo.

Boicote à carne

Reformistas literários como Percy Shelley apostavam no boicote à carne como uma forma de combater também o consumismo. A carne figurava como um dos principais símbolos de distinção social e segregação de classes nos séculos 18 e 19. Para os românticos, que viam a divisão de classes como um dos grandes males da sociedade, a carne foi incluída na dieta humana não para beneficiar o ser humano, mas apenas para gerar lucro, aceitação e atrair visibilidade.

Os vegetarianos do romantismo chamavam a atenção para a opressão hierárquica dentro das classes econômicas e para a forma como a humanidade estava deslocada do mundo natural. Portanto consumir carne não era mais do que um vício burguês, e os abastados eram os únicos em condições de consumi-la com regularidade e em grande quantidade. Paradoxalmente, a dieta mais saudável era a das classes mais baixas. Eles comiam pães com fermentação natural, mingau, tubérculos e outros vegetais.

Outra curiosidade é que os vegetarianos da Era Romântica eram, em sua maioria, intelectuais de classe média que desprezavam a ganância e o desperdício tão inerente à alta burguesia. O escritor inglês Thomas Tryon, importante defensor do vegetarianismo no século 17, declarou que os seres humanos jamais teriam transformado os animais em comida se fosse apenas por desejo, necessidade ou manutenção da vida. Ele acreditava que a humanidade mergulhou em uma forma de ira amplificada pelo retorno financeiro que os animais poderiam proporcionar enquanto produtos. Assim os humanos deixaram de amá-los e vê-los como indefesas criaturas da natureza.

Os românticos apostavam na expansão do vegetarianismo. Mostravam o quanto a dieta vegetariana era acessível. Eles tencionavam elaborar um plano para aumentar a oferta de alimentos vegetais, forçando a diminuição da demanda por terra na criação de animais, o que significaria também reduzir os conflitos de classes. Shelley e outros pensadores entendiam que a comida era um tipo de personificação material de todas as práticas sociais. Por isso a crença de que o boicote ao consumo de carne era a melhor solução para frear o consumismo.

Vegetarianismo, imperativo moral e influências 

Entre os séculos 18 e 19, Inglaterra, Alemanha e França eram os países com mais adeptos do vegetarianismo, não apenas como dieta, mas também como imperativo moral, já que muitos acabaram se tornando vegetarianos por uma preocupação com a exploração e matança de animais.

Com a expansão do vegetarianismo, cresceu a disponibilidade e variedade de vegetais. À época, algumas das grandes cidades da Europa tinham seus próprios jardins que ofereciam frutas e vegetais à população.

E tudo isso graças à influência literária dos românticos na ficção, antropologia, teorias de consumo e evolucionismo. Contudo é importante frisar que o romantismo foi diversamente influenciado, como, por exemplo, pelo filósofo inglês e idealizador do liberalismo John Locke.

Ele percebeu que os animais tinham grande potencial de comunicação, além de condições de expressar emoções e capacidade de sentir dor. Locke ajudou a ampliar a crença de que todos os seres vivos têm uma forte ligação, o que já representava uma compreensão mais próxima da atual acerca do impacto humano para outras espécies e para o mundo. Também sugeriu que ser cruel com algum animal significava ser capaz de ser violento com qualquer criatura viva, inclusive humana.

Outras influências 

Por meio do trabalho de estudiosos como o naturalista francês Louis Lecrerc, o Conde de Buffon, a sociedade passou a reconhecer a complexidade física, biológica e emocional dos organismos que compõem a natureza. Lecrerc defendia a ideia da ancestralidade comum em relação a humanos e animais, o que curiosamente ia ao encontro do que advogavam os românticos.

No século 19, o naturalista britânico Charles Darwin, mais famoso pela autoria de On the Origin of Species, de 1859, foi influenciado por Lecrerc e pelos românticos, constatando que realmente animais e seres humanos estão naturalmente interligados. Com ideologia enraizada na estética romântica da compaixão e da comunhão com a natureza, os adeptos do romantismo também foram pioneiros em outras linhas de frente.

A escritora Mary Wollstonecraft Shelley, autora do clássico Frankenstein, que tem como protagonista um “monstro” que não se alimenta de animais, também defendia os direitos das mulheres. A mesma posição era compartilhada por Percy Shelley, que era seu marido e fazia clara oposição à exploração animal. Outros nomes importantes desse período são os britânicos Alexander Pope e Lord Byron – os maiores poetas do romantismo junto com Shelley.

O trabalho deles culminou na fundação da Vegetarian Society em Londres em 1847, e no uso formal do termo vegetariano em substituição a pitagorianos, muito usado para se referir a quem não se alimentava de animais. Os românticos também tiveram grande influência na criação da Vegan Society, a pioneira do veganismo no Ocidente. “O vegetarianismo é o caminho para que as pessoas voltem a ter uma relação mais respeitosa com a natureza”, dizia Percy Shelley.

 As contribuições do vegetarianismo à sociedade moderna           

O movimento vegetariano durante o Período Romântico foi marcado pela defesa do que viria a ser os direitos animais e das mulheres. Também teve grande importância sobre os direitos civis no século 19. Seus ideais eram sustentados pelo legado de pensadores gregos. “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você”, diziam os românticos, em referência à Regra de Ouro de Pitágoras.

Nenhum ser humano tem mais direito à natureza do que qualquer outro ser vivo senciente. Todos devem ser vistos como iguais, declaravam. Eles rejeitavam a ideia da superioridade humana defendida por quem alegava que o homem era o elo entre a natureza e Deus. “Usurpar autoridade sobre qualquer animal é excesso de orgulho e altivez da alma”, condenou o escritor inglês Robert Morris.

A defesa do vegetarianismo por meio do romantismo reavivou valores morais perdidos pelo ser humano ao longo dos séculos. Inspirou religiões baseadas em velhas doutrinas que optaram por rever a relação entre Deus, seres humanos e animais. Nesse período, os cristãos reconheceram que só após o dilúvio foi dada ao homem a permissão para comer carne, não antes, o que reforça uma crença de que a carne não fazia parte da dieta original humana.

Com isso, religiões que abordam a reencarnação começaram a discutir sobre a alma animal e a reconhecer a importância de outros seres sencientes. “Tenha cuidado, porque quando um verme você esmagar, a alma de um irmão você pode encontrar”, escreveu a poetisa inglesa Anna Laetitia Barbauld, importante nome do romantismo, na obra The Mouse’s Petition, publicada em 1773.

 Referências

Shelley, Percy Bysshe. A Vindication of Natural Diet. London. Smith & Davy (1813).

Ritson, Joseph. An Essay on Abstinence from Animal Food, as a Moral Duty, London, 1802. Kessinger Publishing (2009).

Pope, Alexander. Against Barbarity to Animals, The Guardian, No. 61 (1713).

Morton, Timothy. Cultures of Taste/Theories of Appetite: Eating Romanticism; New York: Palgrave Macmillan (2004).

Morton, Timothy. Joseph Ritson, Percy Shelley and the Making of Romantic Vegetarianism, Romanticism. Vol. 12. The University of California (2006).

Preece, Rod. Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought; Vancouver; Toronto: UBC Press (2008).

Spencer, Colin. The Heretic’s Feast: A History of Vegetarianism; Great Britain: Hartnolls Ltd, Bodmin (1993).

Oerlemans, Onno. Romanticism and the Materiality of Nature. Toronto; Buffalo: University of Toronto Press (2002).

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Perkins, David. Romanticism and Animal Rights. Cambridge, UK; New York: Cambridge University Press (2003).

Stuart, Tristram, The Bloodless Revolution: A Cultural History of Vegetarianism from 1600 to Modern Times; Great Britain. HarperPress (2006).

Kenyon-Jones, Christine. Kindred Brutes: Animals in Romantic-Period Writing; UK: Ashgate Publishing (2001).

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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