Como sofrem os peixes

Achava triste tirarem peixes da água, furando suas bocas, arrastando-os, machucando-os, celebrando suas mortes, expondo-os como troféus

Ilustração: Louis Gedo

No supermercado, enquanto seu pai escolhia frutas e verduras, caminhou até uma sequência de freezers com peixes em promoção. Puxou uma tampa de vidro para o lado e observou animais congelados.

Tirou um de dentro e encarou seus olhos sem vida, cobertos por camada fina de gelo. Esfregou o dedo para enxergá-lo melhor e sentiu tristeza. “De onde será que você veio? Meu pai diz que peixe vem do tanque ou da natureza. Se for do tanque, você nunca viu nada de bom. Se for da natureza, por que te tiraram de lá? É maldade, é sim…sempre é…”

Pensou em quantas coisas bonitas e diferentes um peixe viu que nunca veremos, e também não entendemos porque sequer queremos. “Será que se divertiu, foi longe? Sei que você morreu cedo, porque peixes sempre morrem cedo. Por que as pessoas não ligam pra vocês?”

Achava triste tirarem peixes da água, furando suas bocas, arrastando-os, machucando-os, celebrando suas mortes, expondo-os como troféus de uma prática cruel em que o mais fraco é subjugado pela malícia do mais forte.

“Quem fica feliz em sofrer assim? Quem te olha direito sabe que morreu sufocado, com olho saltado, mas parece que quase ninguém vê. Queria que voltasse a viver. Eu pegaria um galão de água e um balde. Aí com você dentro, a gente te levaria pra um lugar onde ninguém te mataria. Você viveria bastante. Viveria sim.”

Falava com um peixe, mas pensava em todos. Não precisava vê-los, apenas reconhecê-los. Saber que estavam ali era o suficiente pra querer uma realidade diferente. “Sabe por que as pessoas não se importam com a dor de vocês? Eu sei! Porque vocês não parecem com a gente. Isso é triste, é preconceito.”

Sentiu coceirinha desconfortável no canto do olho. Lembrou de um peixe se debatendo e um homem gargalhando, o que ampliou seu desgosto. “É fácil dizer que não sofre quando não é com a gente. Se tem vida, se sente, por que ser indiferente? Tudo isso por que não fazem muito barulho? Não gritam de dor? Mas será que não? Acho que as pessoas que não ouvem, ou não aprenderam a ouvir. Como eu queria te tirar daqui com vida.”

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