Consumo de carne pode reduzir eficácia de medicamentos

Uso contínuo de antibióticos, antifúngicos e antivirais, ainda comum na produção de carne, pode fazer com que medicamentos não tenham mais efeito contra bactérias

Indústria farmacêutica lucra cinco bilhões de dólares por ano com a produção de antibióticos para animais criados para consumo (Foto: Shutterstock)

O consumo de carne pode reduzir a eficácia de medicamentos. Não é difícil chegar a essa conclusão considerando quatro trabalhos – um relatório da Animal Pharm, que desenvolve estudos globais sobre nutrição e saúde animal, uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) e outra pelo Instituto Federal de Tecnologia de Zurique e um estudo da ONU divulgado no final de abril.

O primeiro aponta que a indústria farmacêutica lucra cinco bilhões de dólares por ano com a produção de antibióticos para animais criados para consumo – como bovinos, suínos, aves, etc. Só nos Estados Unidos, o maior produtor de carne bovina, seguido pelo Brasil, cerca de 70% dos antibióticos comercializados são destinados a animais que mais tarde serão abatidos.

O problema é que o uso contínuo de antibióticos, antifúngicos e antivirais, ainda comum na produção mundial de carne, segundo a Animal Pharm, pode fazer com que tanto animais criados para consumo quanto seres humanos sejam afetados por doenças em que o tratamento consiste no uso de medicamentos já ineficazes em lidarem com as chamadas superbactérias.

Segundo a Animal Pharm, no mundo todo as empresas farmacêuticas continuam fazendo lobby contra a regulamentação mais rigorosa dos antimicrobianos que têm uma ampla gama de usos. De acordo com o diretor de políticas da organização Sustainable Food Trust, Richard Young, assim que as empresas produzem um antibiótico, surge o dever de ganhar o máximo possível de dinheiro para os seus acionistas.

“Essa é uma indústria muito sofisticada, com uma longa história de lobby. O problema é que grande parte dos dados usados ​​pelos reguladores é gerada por cientistas ligados às empresas farmacêuticas”, enfatiza o editor da Animal Pharm, Joseph Harvey.

Ele acrescenta que o uso excessivo de antibióticos tem despertado particular preocupação na Ásia, América Latina e África Austral, países que inclusive sustentam frágil legislação contra o uso de alguns tipos de antibióticos.

Harvey destaca que bactérias em humanos e animais criados para consumo continuam mostrando resistência aos antimicrobianos mais amplamente utilizados:

“Por exemplo, a resistência à ciprofloxacina é muito alta em [casos de] campilobacteriose, que causa infecções severas transmitidas por alimentos, e isso reduz a eficácia do tratamento. As salmonelas, que são resistentes a múltiplas drogas, também continuam a se espalhar por toda a Europa e isso tem sérias implicações para a saúde pública.”

Já falando especificamente do Brasil, no ano passado a organização World Animal Protection (WAP) financiou uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), que identificou a presença generalizada de bactérias resistentes a antibióticos em amostras de carne comercializadas em grandes redes de hipermercados do Brasil – como Carrefour, Extra, Pão de Açúcar e Walmart.

Pesquisas realizadas no Brasil, Austrália, Europa, EUA, China e Tailândia já haviam mostrado que quanto maior o uso de antibióticos, especialmente na ração ou água, maiores são as taxas de bactérias resistentes a antibióticos presentes entre animais criados em sistemas intensivos, segundo a WAP.

Há uma estimativa de que mais de 131 mil toneladas de antibióticos são utilizadas todos os anos nas cadeias de criação da pecuária mundial. Segundo levantamento do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, sediado na Suíça, os porcos são os animais que mais recebem antibióticos.

Após o desmame precoce, normalmente os leitões têm as caudas cortadas e são castrados sem anestesia, e é nessa etapa que começam a receber as primeiras doses de antibióticos, de acordo com informações do estudo comandado pelo pesquisador e epidemiologista Thomas van Boeckel.

Já as porcas mães são medicadas para que não desenvolvam infecções causadas por ferimentos e pelo estresse de viver por toda a vida em gaiolas do tamanho de uma geladeira comum.

O uso de medicamentos também é uma alternativa para evitar doenças em galpões superlotados de animais, onde o estresse é constante, e as condições facilitadoras da proliferação de superbactérias.

Se tratando da avicultura, um dos usos mais comuns são dos antibióticos ionóforos, que ajudam a estimular o crescimento e o ganho de peso do animal ao mesmo tempo em que se evita a coccidiose, doença intestinal que afeta frangos e galinhas quando ingerem os próprios excrementos ou de algum parceiro em confinamento. No entanto, com o uso frequente, os efeitos vão sendo minados.

No final do mês passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) também divulgou o seu próprio relatório sobre o assunto, destacando que nesse ritmo até 2050 dez milhões de pessoas no mundo poderão morrer a cada ano devido a doenças resistentes a medicamentos.

Segundo a publicação, infecções que não respondem a remédios são responsáveis por pelos menos 700 mil óbitos anualmente. Dessas mortes, 230 mil são causadas por formas de tuberculose capazes de sobreviver a diferentes fármacos.

O relatório aponta que doenças comuns, como infecções respiratórias, urinárias e também infecções sexualmente transmissíveis, estão se tornando cada vez mais difíceis de serem tratadas.

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