Couro também é violência

Ilustração: Sajad Farkoush

Água caía sobre o bico do sapato novo. Continuou andando e a chuva molhou todo o calçado. Perdeu cor. Sentiu cheiro de bicho molhado. Uma hora antes tirou da caixa e cheirou. Achou gostoso.

Parou sob a marquise. Água desceu enviesada, molhando o par. Que odor desconfortável. Quis de volta o cheiro artificial de couro, a tinta e o aspecto lustroso. Deve ser defeito.

Doutro lado da rua, viu painel pequeno com gado no pasto. Quando olhou para os pés, estavam enrolados em dois pedaços de couro cru de vaca. Sentiu a sola escorregadia em atrito com vestígios pegajosos de sangue – meio molhado, meio seco.

Com desconforto e nojo, tentou desenrolar os pedaços de couro. Não conseguiu. Desistiu e ficou parado observando a chuva. Mais pessoas passavam com pés enrolados em couro fresco.

Quanto cheiro de bicho molhado. Do matadouro para os pés, sem intermediação, sem fabril manipulação. Abateu, esfolou, calçou. Deixavam marcas de sangue, cheiro enjoativo e ferroso.

Não sentiam desconforto enquanto o couro fedia e apodrecia. É a vida, é a morte. Alguém tem de morrer pra envolver pés. Na calçada, resquícios de couro desmanchavam.

Desistiu de ficar ali e caminhou até o meio-fio. Água ganhou mais intensidade e abriu o couro calçado. Tinha número que virou nome. Lambeca?

Dobrou os dois pedaços de couro e deixou a chuva levar. Painel desapareceu. Foi embora descalço, sentindo a água remover manchas de sangue entre os dedos. Nem só água nem só sangue…nem só couro.

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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