Nasce com bico, mas não pode tê-lo, não integralmente, sem mutilação, sem destruição parcial. É como se ter bico fosse antinatural, incorreto, proibido. Não é difícil concluir isso quando uma prática como a debicagem é tão normalizada.
É mais uma das violações ao corpo não humano, ao não direito ao que é intrínseco à sua fisicalidade. E o animal que a sofre não é ainda uma galinha, já que o processo, que também é parte da reificação, ocorre entre o primeiro ao décimo dia de vida.
Que direito o animal tem sobre o próprio corpo quando a definição sobre quais partes devem ser mutiladas ou mantidas é determinada por atividade indissociável do nosso sistema alimentar?
Alega-se que as aves podem praticar violência entre elas, que pode haver canibalismo, que podem bicar os ovos (que são seus por inerência) e que tal mutilação também é benéfica à conversão alimentar.
Ou seja, todos os motivos para a debicagem são norteados e justificados por interesses de lucro/consumo que impulsionam formas de descaracterização. Afinal, correto seria dizer que remover algo de um animal, e que é parte da sua condição animal, não evoca uma desanimalização?
Ademais, a própria associação com possível canibalismo não pode ser desconectada de sua contextualidade, já que nada é mais impulsionador de determinados comportamentos, que dependem de respostas emocionais, podendo ser identificadas como “viscerais”, do que o próprio contexto.
Porém, se tal reação é vista como extrema ou chocante, o que dizer do sistema que é razão de tal ação? E cada ação entendida dessa forma pode ter sido precedida por um acúmulo de inação do mesmo animal.
Claro, também podemos entender que esses animais não são “criaturas naturais”. A “condição doméstica” do animal, gerada e reduzida pelo sistema à “condição produtiva”, é conflitante à própria natureza inaturalizada – em consequência de uma conexão/desconexão entre ancestralidade/realidade/finalidade.
E todos os conflitos vividos por esse animal são favorecidos pela atribuição de finalidade, que é o que impulsiona a chegada de tantos animais ao mundo para serem submetidos ao nosso sistema alimentar.
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