Explorar animais é privá-los do direito sobre seus corpos

Há um corpo condicionado a uma rotina produtiva, que é menos inerente ao animal e mais ao sistema. Se do corpo é possível obter um volume específico de produtos, é do interesse do animal proporcioná-lo ou do domínio exercido sobre seu corpo?

Fotos: Andrew Skowron

Quantas pessoas pensam no exercício de domínio sobre corpos não humanos a partir do sistema alimentar? Um corpo que é tão corpo quanto não corpo.

Por exemplo, um animal nasce, chegando ao mundo a partir de outro corpo. Então é separado do corpo que não é seu, que é materno e, assim como o seu, pode ser interpretado como um não corpo; porque o corpo que o gerou também tem, por precedência, outras privações cíclicas, contínuas, diárias.

Sobre isso, você pode imaginar uma vaca e um bezerro. E que direito tem a vaca sobre o próprio corpo, se é da violação do corpo que produtos são gerados?

Há um corpo condicionado a uma rotina produtiva, que é menos inerente ao animal e mais ao sistema. Se do corpo é possível obter um volume específico de produtos, é do interesse do animal proporcioná-lo ou do domínio exercido sobre seu corpo?

Quando o corpo pertence ao animal se sobre ele não é possível exercer direito? Nenhuma fase de sua vida é determinada por sua vontade – procriar, lactar, gerar produtos (sempre numa intensificação consequencial).

Se um animal adoece no sistema de produção, correto seria dizer que o problema vem da ausência do próprio corpo, imperiosamente controlado. Afinal, não é do contexto de produção que surge a enfermidade?

Não há como responsabilizar um animal por doenças e problemas surgidos em decorrência de ações impositivas ao seu não corpo – que é corpo não reconhecido na prática como seu. O bezerro também não tem um corpo.

Quando o corpo do bezerro é do bezerro? Não apenas a subjugação de viés econômico e o abate de animais são emblemáticos dessa realidade, mas também o descarte – de saudáveis ou enfermos.

Todo animal condicionado a violações e produtificações vive a realidade do não corpo, se sobre o corpo é impossibilitado de exercer qualquer controle ou vontade percebida como contraposição à eficiência do sistema em que está inserido.

A maneira como foi gerado e como nasce, a chegada ao mundo, e todas as fases de sua vida, incluindo marcações, mutilações, penetrações, limitações espaciais e adensamento, são elementos que consolidam a realidade de um não corpo.

E como ignorar a validade pré-determinada como fator de não corpo? Tais alusões remetem a inúmeras espécies criadas com finalidade de consumo, incluindo aquelas que podem ser mais negligenciadas do que outras.

O não corpo também se constrói a partir de outro problema imanente que é a impossibilidade social, de manter laços básicos ou primários desenvolvidos nas primeiras fases da vida, por separação ou desconexão. Um exemplo pode ser um leitãozinho com 21 dias de idade, privado do convívio materno, e que será morto com menos de seis meses.

O canibalismo como fator de estresse em animais criados para finalidades alimentícias também resulta do não corpo porque, não podendo controlar o seu próprio (que na verdade nunca é), a visceralização, que é também resultado do não ser, é ação extrema de irreconhecimento aliado a um tipo invisibilizado de sofrimento.

Como não dizer que um frango ser morto com um mês e meio é reflexo do não corpo? E sobre viver amontoado e ainda experimentar outro tipo de prisão, bem mais estreita, nas caixas coloridas a caminho do abate?

E as galinhas, que só vivem à medida que botam? O corpo pertence a elas ou à granja? Outro exemplo de não corpo. E os pintinhos machos que nascem e já são mortos? Podemos pensar em qualquer animal que tem sua corporalidade aliada à utilidade.

Afinal, não sendo qualificada como útil e não tendo tais animais controle sobre o próprio corpo, são vítimas do sistema que as afugenta em uma realidade efêmera, e porque assim também são suas breves vidas, de não corpo.

Em um sistema que corpos não humanos são produtificados, os animais que compõem essa realidade experimentam o tempo todo a arbitrariedade do não corpo, do nascimento à morte – e amargam a dor de um corpo que não é seu.

E nada pode ser mais simbólico e postremo dessa concepção do que o ato anfêmero e trivializado de comer partes desses corpos que, quando vivos, eram não corpos.

 

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