Categorias: Contos e Crônicas

Fim de um animal para o Natal

Pintura: Albert Guasch

Encontrou um animal atravessando um campo um mês antes do Natal. “Parece não ser de ninguém.” Com a ajuda de um amigo o colocou na carroceria e o levou embora. Aguardou uma semana e não soube de reclamação de desaparecimento.

Concluiu que era um belo presente de Natal. O amarrou no quintal e deu-lhe comida, água e permitiu que as crianças e os outros animais brincassem com ele. Duas semanas mais tarde, já sentia-se confortável. Não fazia barulho durante o dia nem de madrugada.

Seu remanso surpreendia, e à noite, quando todo mundo entrava, continuava lá fora, num espaço confortável e coberto que permitia sua entrada e saída. Sem sono, olhava para os lados e para tudo. Às vezes era dominado por euforia que fazia seu coração acelerar e sua energia aumentar. Logo depois vinha a calmaria. Suas emoções mudavam muito antes de amanhecer.

Todos os dias recebia visita de outros animais que viviam no entorno, e o observavam sem chegar muito perto. Mais tarde, as crianças vinham, o abraçavam, acariciavam e ele fechava os olhos. Quando os outros animais da casa ficavam enciumados, latiam e latiam até cansar. Aquilo nunca o incomodava, sua expressão pouco mudava.

Mais comida chegava e mais água fresca. Comia com tanto apetite que todo mundo ria. E a água era sorvida com tanta celeridade – como se a boca fosse um sugadouro. Tudo aquilo divertia quem ali vivia. Então deitava e dormia, sentindo toque macio.

Parecia satisfeito em estar ali. Muitas vezes nem abriu os olhos quando recebeu visita. Mais bem nutrido do que nunca, confiava em quem se aproximava e o tocava, e dormia até melhor assim.

A euforia da madrugada foi desaparecendo, restando somente calmaria, e ainda recebia outros animais da região de madrugada, que o olhavam de fora da propriedade, mas ele já não saía do lugar.

Numa manhã o penduraram e viu tudo virado. O que significava aquilo num mundo, de súbito, transformado? Sentiu a lâmina que substituiu o afago. Gemeu, berrou, sangrou. Não sorriam mais para ele, não havia mais comida para ele – nem vida para ele. Mas no Natal muitas pessoas vieram por ele porque já não era ele.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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