Um estudo publicado na revista científica Trauma, Violence, & Abuse apresenta uma revisão do que já foi publicado em alguns países sobre o impacto que atuar em matadouros tem na vida dos trabalhadores, principalmente em relação a transtornos mentais.
As autoras Jessica Slade e Emma Alleyne apontam que ainda há poucos estudos sobre o assunto. Em 2019, publicamos sobre um estudo realizado pela pesquisadora e professora Antoni Barnard, da Universidade da África do Sul, que analisou o impacto psicológico de se trabalhar matando animais.
Esse estudo, que cita o desenvolvimento e agravamento de ansiedade, depressão e baixa resistência à frustração, além do desenvolvimento de quadros de raiva e emoções negativas mais constantes, também é referenciado por Slade e Alleyne.
Elas observaram que vários artigos científicos sobre o assunto têm em comum um apontamento de que a matança e desmembramento de animais podem ter grande impacto no bem-estar desses trabalhadores. A incidência de depressão em funcionários de matadouro é quatro vezes maior em comparação com a média para outras atividades.
Também é citado no estudo que há um crescente número de evidências de que os trabalhadores de matadouros desenvolvem sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
“Principalmente estresse induzido por perpetração, que é uma forma de TEPT em que a pessoa está envolvida (ou acredita estar envolvida) na criação da situação traumática.” Nesse caso, claro, isso tem relação com a ação de matar animais.
As autoras chamam a atenção para o fato de que os trabalhadores que atuam nessa indústria estão envolvidos globalmente na morte de mais de 70 bilhões de animais a cada ano.
A maioria desses trabalhadores é proveniente das classes sociais mais baixas e são descritos como tendo “nível educacional limitado”. Também há países em que 70% dos funcionários que atuam nesse ramo são imigrantes.
Podemos lembrar que desde a década passada, haitianos e venezuelanos passaram a ocupar um crescente espaço nos matadouros brasileiros, conforme dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
Na revisão apresentada, Slade e Allayne destacam também a alta exposição dos trabalhadores aos riscos de ferimentos, incluindo amputações. A revisão também referencia relatos de pesadelos e abuso de substâncias.
“Todos os estudos concluíram que esses trabalhadores têm níveis mais baixos de bem-estar psicológico em comparação com seus respectivos grupos de controle.” Níveis elevados de estresse também são citados como comuns em pessoas que atuam em matadouros.
Já os relatos sobre a primeira experiência após matar um animal envolvem trauma, choque intenso, paranoia, medo, ansiedade, culpa e vergonha. Mesmo quando os trabalhadores acreditam que se acostumaram com a atividade, isso não interfere no desenvolvimento ou continuidade dos transtornos mentais.
A conclusão a partir do estudo é que esses trabalhadores têm uma taxa de prevalência mais alta de problemas de saúde mental, mas especialmente depressão e ansiedade.
“As pesquisas existentes evidenciam a relação entre esta forma de emprego e resultados psicológicos e comportamentais negativos, tanto no nível individual quanto para a sociedade em geral. Além disso, essas descobertas têm implicações claras para profissionais de saúde mental e da comunidade que estão em posição de abordar as consequências negativas dessa indústria”, registram as autoras.
Observação
Jessica Slade e Emma Alleyne são pesquisadoras da Faculdade de Psicologia da Universidade de Kent, no Reino Unido.
Clique aqui para ter acesso ao estudo “The Psychological Impact of Slaughterhouse Employment: A Systematic Literature Review“.
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Há o documentário "Carne, osso" que retrata isso.