Ilustradora expõe violência no prato a partir da infância

Caroletta: "Elas não conseguem fazer a conexão entre a carne em seus pratos e o animal que esse pedaço de carne morta já foi"

Ilustrações: Caroletta

É comum não refletirmos sobre a violência que semeamos a partir das nossas relações de consumo. Isso passa a ser ainda mais socialmente aceitável quando nos tornamos adultos e perdemos o interesse em questionar costumes e hábitos que legitimamos como parte de uma realidade fundamentada em uma crença fatalista. Ou seja, de que as coisas são apenas como são, como se fôssemos incapazes de mudá-las.

Essa cultura instiga gerações e mais gerações a criarem seus filhos da mesma maneira, e transmite a eles a crença de que alimentar-se de animais é parte do ser humano, das suas vontades e supostas necessidades; e até mais do que isso – fazem com que as crianças acreditem que os animais existem ou devem existir em nosso benefício, como se fôssemos o que existe de mais importante no planeta, como preconiza o antropocentrismo.

O que nos leva por esse caminho é o fator cultural que, com boa vontade, pode ser modificado, desde que sejamos conscientizados e educados para o reconhecimento de que outras formas de vida senciente também partilham do interesse em não submeter-se à privação, sofrimento e morte em benefício de outra espécie que pode viver muito bem sem tal violência.

Legitimação da violência do consumo a partir da infância

Um trabalho que vai ao encontro dessas considerações é o da ilustradora alemã Carolin Günther, mais conhecida como Caroletta, que flertando com o surrealismo expõe a legitimação das nossas violentas relações de consumo logo a partir da infância.

O seu trabalho choca dois universos – o bucólico, inerente à infância; e o bárbaro, inerente à dissimulação amparada nos costumes. Por isso, ao abordar o consumo de animais na infância, a artista vegana cria no mesmo contexto um fundo que remete ao fúnebre e à escuridão semeada pelo desconhecimento e por nossa cegueira moral que exclui outras espécies do universo da não exploração.

Dessa forma, a compartilhamos com as crianças na perpetuação da legitimação dessa violência – já que elas farão parte das novas gerações que devem garantir a manutenção dessa exploração.

Crianças comem sem saber do que se trata

Nas ilustrações de Caroletta, há uma beleza triste e sombria e uma contundente opacidade que reflete a realidade, uma proposital falta de brilho que se traduz na inexistência da vida, na arbitrária abstenção do direito de viver.

O vermelho, o preto e o verde são cores que norteiam seu trabalho, e nos remetem à violência/sangue derramado, assim como uma ausência/cegueira/pesar, além do romântico contraste da empatia que nos foge pela ausência de vontade e/ou intenção. É possível interpretar que em meio às flores, sangramos os outros e ainda romantizamos suas mortes.

“As crianças comem suas linguiças e salsichas favoritas sem nem mesmo saber o que há dentro. Elas não conseguem fazer a conexão entre a carne em seus pratos e o animal que esse pedaço de carne morta já foi. Muitos adultos também esqueceram – ou nunca souberam disso”, diz Caroletta, que não consome animais há mais de 30 anos.

A carne no prato e o animal na cama

Para sensibilizar as pessoas de alguma forma, a artista criou o projeto “About Meat”. “Com a série, quero dar uma cara ao carnismo invisível em nossa sociedade. Quero ilustrar essa maneira completamente absurda de pensar e ainda estou longe de terminar [esse trabalho]”, explica.

E acrescenta: “O que parece bizarro a princípio deve convidá-lo a refletir sobre as normas sociais e morais em relação ao nosso consumo de carne.”

Há pouco tempo, no dia 17 de abril, Caroletta publicou o livro “So haben wir das schon immer gemacht: Ein Bilderbuch übers Tiereessen” ou “Foi assim que sempre fizemos: um livro ilustrado sobre como comer animais” em tradução livre, que ela sintetiza como “uma obra sobre a carne no prato e o animal de estimação na cama.”

“As vidas dos humanos e dos animais sempre foram ligadas. Por um lado, os chamados animais de fazenda estão em uma violenta e indescritível relação de exploração conosco, enquanto, por outro lado, os animais de estimação têm um sólido espaço em nossas famílias. Acariciamos alguns e ao mesmo tempo mastigamos outros. Nossa ganância aparentemente insaciável por produtos de origem animal também tem aspectos éticos e consequências de grande impacto para o meio ambiente, clima e nossa saúde”, conclui.

Para acompanhar o trabalho da ilustradora:

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