O Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revelou que a produção de proteína animal está sob pressão significativa e acelerada das mudanças climáticas – representando um risco material significativo para os investidores.
A Iniciativa Fairr, uma influente rede apoiada por investidores que administram US$ 52 trilhões em ativos, alerta para um “momento Apollo 13” na indústria de carnes e laticínios. A Fairr publicou um novo briefing para investidores, após a análise das conclusões do IPCC.
“Os investidores estão preocupados que a agropecuária global possa enfrentar um momento Apollo-13 – que exigirá inovação urgente para sobreviver – à medida que a transição de baixo carbono força os investidores a transferir capital”, diz a diretora executiva da Fairr, Maria Lettini.
Dois relatórios publicados recentemente pelo IPCC – órgão da ONU dedicado à ciência relacionada às mudanças climáticas – concluíram que:
“Os investidores já estão bem cientes dos riscos regulatórios e financeiros que o setor pecuário enfrenta quando se trata do clima. Por exemplo, a Fairr calculou que um imposto de carbono até 2050 aumentaria os custos para as empresas de carne bovina em até 55% do EBITDA [lucro antes de juros, impostos depreciação e amortização]. Agora, a ciência está clara de que também há risco físico, prevendo que 20% podem ser varridos do valor do setor de carne bovina por estresse térmico extremo em animais.”
Um momento Apollo-13 refere-se ao quase desastre na missão lunar Apollo 13, 52 anos atrás, quando engenheiros tiveram que ajudar três astronautas a reconfigurar seu sistema de filtro de CO2 para garantir ar suficiente para todos os três sobreviverem à jornada de volta à Terra.
O tipo de inovação exigida pela indústria da carne provavelmente exigirá uma ampla adoção de proteínas alternativas, com a análise Fairr sugerindo que as proteínas alternativas podem representar 64% do mercado global de proteínas até 2060
De acordo com o IPCC, os impactos do aquecimento serão diferentes entre as regiões, mas os eventos que afetam negativamente a pecuária e a agricultura – como seca, chuvas fortes e incêndios – aumentarão em frequência e gravidade. Isso está de acordo com as descobertas recentes do Coller Fairr Protein Producer Index, que descobriu que 7/60 empresas analisadas relataram impactos financeiros relacionados ao clima.
Por exemplo, a receita operacional da Tyson Foods (EUA) diminuiu US$ 410 milhões ano a ano nos primeiros nove meses de 2021, em parte devido a interrupções climáticas severas. A brasileira BRF estima que mudanças nas taxas de precipitação resultarão em perdas anuais de até R$ 800 milhões.
O estresse térmico já custa à indústria de laticínios dos EUA cerca de US$ 897 a US$ 1.500 milhões por ano em receita, e à indústria de carne bovina dos EUA US$ 369 milhões por ano, de acordo com a pesquisa da Fairr. O Departamento de Agricultura dos EUA revelou este mês que o calor fora de época contribuiu para o provável aumento nos preços da carne bovina no atacado nos EUA entre 4% a 7% e até 5% nos preços dos laticínios.
O IPCC acrescenta que o aumento do estresse térmico na pecuária provavelmente será um desafio particular para grandes nações que mais praticam a pecuária extensiva, como Austrália e Brasil. O relatório conclui que, para cada grau de aquecimento, o animal médio come de 3 a 5% menos, prejudicando a produtividade e a fertilidade. Os EUA, o Reino Unido e a África Ocidental devem perder até 17% da produção de leite até o final do século.
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