Meta da Europa para cortar emissões de metano depende de redução em rebanhos, diz relatório

"Uma crença infundada está fazendo com que o dinheiro da UE esteja sendo gasto para promover a carne vermelha e processada, enquanto os especialistas nos dizem que deveríamos comer menos dela”, afirma Monique Goyens

É improvável que a União Europeia cumpra sua promessa de reduzir as emissões de metano em 30% até 2030 sem reduzir desde já o número de animais criados para fins alimentícios, revela um novo relatório divulgado ontem (14).

A meta, batizada de “Global Methane Pledge”, foi lançada pela UE e pelos EUA na Conferência das Nações Unidas para o Clima do ano passado, a COP26, realizada em Glasgow, na Escócia.

Agricultura (71% das terras agrícolas europeias estão atualmente dedicadas ao cultivo de ração animal) e produção animal respondem por mais da metade (53%) do metano da UE, a maior parte proveniente da produção de carne e laticínios.

A pesquisa “High Steaks”, realizada pela CE Delft a pedido da organização Changing Markets Foundation, mostra que as atuais políticas da União Europeia permitem ao bloco reduzir no máximo 13,4% das emissões atuais de metano até 2030. Desenvolvimentos recentes, particularmente no setor de energia, poderiam proporcionar reduções adicionais de pelo menos 3,4% até 2030, mas ainda assim deixarão a UE bem fora da meta.

Por outro lado, a análise afirma que a UE pode reduzir as emissões para além disso – 34% — se persuadir ao menos 10% dos consumidores do bloco a mudar suas dietas, substituindo carne e laticínios por opções de origem vegetal.

O metano tem um ciclo de permanência na atmosfera mais curto do que o gás de efeito estufa (GEE) mais famoso, o CO2 (dióxido de carbono) – são cerca de 20 anos contra 100-150, respectivamente. Apesar disso, o metano tem um poder de aquecimento 80 vezes maior e corresponde a cerca de 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa da União Europeia, que é um dos maiores emissores de GEE do planeta.

Durante muito tempo a ciência negligenciou o papel do metano em acelerar as mudanças climáticas, mas o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) de 2021 dedicou um capítulo específico ao tema, alertando que cortes bruscos no metano e de outros poluentes climáticos de curta duração são críticos para manter a meta de limitar o aumento da temperatura média da Terra em 1,5°C.

“A agricultura é o calcanhar de Aquiles da estratégia de metano da Europa”, afirma Nusa Urbancic, Diretora de Campanhas da Changing Markets Foundation. “As emissões de metano das fazendas da UE são equivalentes ao total de emissões de 50 usinas elétricas movidas a carvão, mas as políticas que poderiam proporcionar cortes significativos, incentivando uma mudança para dietas mais saudáveis com menos carne e laticínios, estão completamente ausentes dos planos do bloco.”

Insuficiente

Uma redução de metano em 30% nesta década parece ambiciosa, mas é, na verdade, insuficiente para garantir o objetivo de 1,5°C do Acordo de Paris. Segundo a pesquisa, como a União Europeia é um grande emissor, seria necessário um corte de 45% até 2030 para que o bloco esteja na trajetória da meta.

Reduções de 38-47% poderiam ser alcançadas se metade dos europeus reduzisse seu consumo de carne e laticínios, e medidas adicionais – como combater a perda e o desperdício de alimentos – fossem introduzidas juntamente com os planos existentes.

“Uma crença infundada está fazendo com que o dinheiro da UE esteja sendo gasto para promover a carne vermelha e processada, enquanto os especialistas nos dizem que deveríamos comer menos dela”, afirma Monique Goyens, diretora geral da Organização Europeia de Consumidores.

Além de ser mais eficaz na redução de metano, a promoção de dietas com menos carne e laticínios produziria outros benefícios coletivos, de acordo com a pesquisa: melhora geral da saúde pública, com menos gastos para tratamentos de doenças cardiovasculares e câncer; mais terras agricultáveis disponíveis e redirecionamento do cultivo de grãos para alimentação humana.

Segundo Goyens, dietas mais saudáveis, mais baseadas em vegetais podem beneficiar a saúde do consumidor e do planeta.  ”A UE fará uma melhor redução de metano se tornar as dietas saudáveis e sustentáveis amplamente disponíveis, atraentes e acessíveis a todos os consumidores”.

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