Michael Pollan: “A produção de ovos é a pior de todas”

"Absolutamente todos os instintos naturais dessa galinha são distorcidos, levando a uma série de 'fraquezas' comportamentais"

“E, quando a produção das sobreviventes começa a diminuir, as galinhas serão ‘forçadas a definhar'” (Fotos: Reprodução/Jesse Costa/WBUR)

A produção de ovos é a pior de todas. Não consegui na realidade entrar num lugar desses, já que jornalistas não são bem-vindos ali. Nos Estados Unidos, o gado destinado ao corte [em parte] pelo menos vive ao ar livre, ainda que atolado até os tornozelos na sua própria sujeira e comendo uma dieta que os deixa doentes. E os frangos destinados ao abate, ainda que tenham os bicos arrancados com uma faca quente para impedir que se canibalizem sob o efeito da pressão provocada pelo confinamento, pelo menos não passam suas vidas fechados em espaços pequenos demais para que possam até mesmo erguer uma asa.

Esse destino está reservado para a galinha poedeira, que passa sua breve vida empilhada com meia dúzia de outras galinhas numa gaiola cujo chão seria completamente coberto, de um canto a outro, com apenas quatro páginas deste livro. Absolutamente todos os instintos naturais dessa galinha são distorcidos, levando a uma série de “fraquezas” comportamentais que incluem comer suas colegas de cela e esfregar seus peitos contra o arame das grades até que fiquem completamente pelados e sangrando.

(Essa é a principal razão pela qual as aves de corte conseguem se livrar da vida na gaiola; ferir um peito cuja carne é uma mercadoria tão valorizada seria um péssimo negócio.) Dor? Sofrimento? Loucura? A suspensão das nossas convicções em função de uma operação industrial depende da aceitação de certos termos neutros como “fraquezas”, “estereótipos” e “pressão”. Mas, não importa como chamemos o que acontece nessas gaiolas, os 10% das galinhas que não conseguem suportar essas condições e simplesmente morrem já estão contabilizados nos custos da produção.

E, quando a produção das sobreviventes começa a diminuir, as galinhas serão “forçadas a definhar” – privadas de comida, água e luz por vários dias de modo a estimular a produção de uma última série de ovos antes que sua curta vida chegue a o fim. Sei que simplesmente recitar esses fatos, extraídos em sua maior parte de revistas especializadas em criação de galinhas, faz com que eu pareça um desses ativistas pró-animais, não é verdade? Não tenho a intenção de fazer isso (lembrem-se de que comecei essa história de ser vegetariano partindo do pressuposto que continuaria a comer ovos), mas isso é o que acontece quando… olhamos.

E o que vemos quando olhamos é a crueldade – e a cegueira em relação à crueldade – exigida para produzir ovos que podem ser vendidos a 75 centavos a dúzia. Sempre existiu uma tensão entre o imperativo capitalista de um lado, decidido a maximizar a eficiência a qualquer custo, e os imperativos morais da cultura, que historicamente têm servido de contrapeso à cegueira moral do mercado. Esse é outro exemplo das contradições culturais do capitalismo – a tendência que se faz sentir ao longo do tempo para que o impulso econômico acabe provocando a erosão dos pilares morais da sociedade.

A compaixão em relação aos animais sob nossa custódia é uma das vítimas desse processo. A instalação industrial destinada à criação de animais oferece um vislumbre dantesco do que o capitalismo é capaz na ausência de algum tipo de restrição moral ou de regulamentação. (Não é mero acaso o fato de os trabalhadores não sindicalizados receberem nessas fábricas quase o mesmo tratamento dado aos animais.) Aqui, nesses lugares miseráveis, a própria vida é redefinida – como “produção de proteína” –, e com ela também a noção de “sofrimento”.

Essa palavra venerável transforma-se em “estresse”, um problema econômico em busca de uma solução eficiente em termos de custo, como, por exemplo, cortar os bicos das galinhas ou os rabos dos porcos ou, na mais recente iniciativa dessa indústria, simplesmente recorrer à engenharia genética para eliminar o “gene do estresse” dos porcos e das galinhas. Tudo isso se parece muito com a realização dos nossos mais terríveis pesadelos relacionados com a prisão e a tortura, e é isso mesmo, mas também se trata da vida real para bilhões de animais azarados o bastante para terem nascido sob esses tetos esverdeados de metal em meio à vida breve e impiedosa num a unidade de produção nos dias anteriores à descoberta do gene do sofrimento.

Michael Pollan no capítulo “Comer Animais” do livro “O Dilema do Onívoro”, publicado em 2006 nos Estados Unidos e lançado no Brasil em 2007 pela Editora Intrínseca. Pollan é jornalista, professor de não ficção na Universidade Harvard e de jornalismo na Universidade da Califórnia.

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