Mais uma vez, milhares de cães serão mortos até o final do Festival de Yulin

O primeiro festival foi realizado em 2009 e surgiu com um viés comercial, visando intensificar o consumo de carne de cachorro na China

Há cães e gatos servidos no festival que são abatidos aos olhos do público (Acervo: HSI)

Começou no dia 21 e termina no domingo (30) um dos eventos mais controversos da China – o Festival de Lichia e Carne de Cachorro. Mais uma vez, a previsão é de que pelo menos 10 mil cães serão mortos para consumo. Como ocorre todos os anos, ativistas dos direitos animais têm se esforçado para tentar impedir a realização do evento.

O movimento Nação Vegana Brasil, por exemplo, conseguiu 2,3 milhões de assinaturas contra o festival e as entregou na Embaixada da China. Esta é a maior petição contra o evento desde que começou a ser realizado em Yulin, na província de Guangxi, onde oferecem carne de cachorro e de gato, além de lichias frescas e licores.

O primeiro festival foi realizado em 2009 e surgiu com um viés comercial, visando intensificar o consumo de carne de cachorro na China. Para tentar favorecer esse mercado, passaram a promover uma história de que tal consumo “traz sorte, boa saúde e melhora o desempenho sexual”. Ou seja, não é um evento realmente tradicional como alguns dizem e se sustenta na promoção de inverdades. E o que corrobora isso é uma pesquisa conduzida pela Beijing Capital Animal Welfare Association e Dalian Vshine Animal Protection Association.

“O consumo de carne de cachorro é mais difundido em Yulin (87%). Em contraste, o percentual nacional é de 30% e o percentual provincial (Guangxi) é de 56%. Uma explicação é que os residentes de Yulin são mais propensos a serem potenciais consumidores e a comerem carne de cachorro por acidente em eventos sociais e jantares”, informa.

O relatório também aponta que o festival foi lançado pela indústria de carne de cachorro, e ganhou visibilidade como resultado da promoção agressiva desse mercado. “A disseminação do consumo de carne de cachorro nas áreas urbanas de Yulin é resultado da promoção comercial. Apesar de sua disseminação em Yulin, o consumo de carne de cachorro não entrou nos lares do público em geral. Não se enraizou nas áreas rurais. Esse consumo não é comparável ao consumo de carne de porco, carne bovina, frango, peixe ou ovos”, afirma a publicação.

Por outro lado, e infelizmente, quando as pessoas consomem esse tipo de carne ou não fazem oposição ao Festival de Yulin, elas endossam a morte violenta de milhares de cães, não gostariam de ter suas vidas precocemente usurpadas para atender interesses humanos não imprescindíveis, assim como fazemos com bois, vacas, porcos, frangos, galinhas, etc. Afinal, senciência é senciência, não é mesmo? E todos os animais que os seres humanos comem partilham dessa mesma capacidade.

Há cães e gatos servidos no festival que são abatidos aos olhos do público. Outro problema é que o festival incentiva o roubo de animais. Prova disso é que este ano um grupo de ativistas chineses trabalhando em parceria com a Humane Society International conseguiu resgatar 62 cães de um matadouro e alguns deles ainda usavam coleiras.

Felizmente, ações de grupos em defesa dos animais têm garantido o resgate de pelo menos mil animais durante o festival. Além disso, apesar da associação com o consumo de carne de cachorro, a China é um país onde muitos não concordam nem com a realização do festival nem com o consumo de carne de cachorro. Uma prova disso é que há mais de 62 milhões de cães e gatos domésticos registrados no país.

Mas se há tantas pessoas que não concordam com o festival, por que ele continua sendo realizado? Provavelmente porque muitos o reprovam, mas não o suficiente para deixarem suas casas e protestarem contra a matança de animais iguais aqueles que eles mantêm ao seu lado.

Quem sabe, impere algo como o clichê: “O que os olhos não veem o coração não sente.” Sobre a possibilidade de se interromper o festival, o governo municipal de Yulin já alegou várias vezes que não “há nada a ser feito porque o festival não existe como evento oficial”. Em síntese, o clássico “lava mãos”.

Talvez o Festival de Yulin, que hoje é um evento que ocorre em uma época auspiciosa, afinal, é isso que o verão também simboliza para os chineses, tivesse um potencial muito maior se fosse transformado em um festival só de lichias frescas e licores – o que provavelmente atrairia muito mais visitantes. Afinal, lichia e licor combinam muito mais com a fausta representatividade do verão, com sua luz e cores, do que o sangue derramado de criaturas que gostariam de viver.

Claro, não há como negar que a oposição ao festival tem o seu aspecto positivo, de conscientização em relação à coisificação de cães e gatos, mas talvez seja válido ir um pouquinho além, e estender essa mesma preocupação a outros animais que todos os dias matamos aos milhões mais para satisfazer os nossos paladares que sem muitas dificuldades poderiam ser reeducados.

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