Não incentivamos a morte de animais “apenas” quando os comemos

Mas também quando consumimos um produto que existe porque um animal é criado para gerá-lo. Se um animal é meio para um bem de consumo, quando deixa de gerá-lo, ou passa a gerá-lo de forma ineficiente, ele é morto

Ilustração: Jo Frederiks

Não incentivamos a morte de animais ‘apenas” quando os comemos, mas também quando consumimos um produto que existe porque um animal é criado para gerá-lo. Se um animal é meio para um bem de consumo, quando deixa de gerá-lo, ou passa a gerá-lo de forma ineficiente, ele é morto.

Pessoas que obtêm vantagens a partir do uso de animais jamais os criariam se fosse somente para alimentá-los, permitir que tenham uma vida tranquila. Como ignorar que viver dessa maneira é incompatível com a geração de lucro?

Por quê? Porque lucro depende de condicionamento, de controle sobre a rotina dos animais e de uma dieta que seja voltada menos para a saúde e mais para a “excelência produtiva”, que significa ter como foco o que o animal gera, não o que necessita enquanto ser senciente – para si mesmo, independente do que lhe é alheio por inerência, que são os interesses humanos.

“Olhe como comem bem”, dizem e associam com os resultados dessa alimentação em geração de produtos a partir de quem é tratado como produto – mas produto, por ora, vivo, com demandas atendidas com base no potencial de geração de lucro.

Abstraindo-se disso o lucro, abstrai-se também o animal, que transita da vida para a morte. O mesmo pode ser dito sobre animais usados para outras finalidades dissociadas do paladar, já que toda forma de uso não humano é marcada pelo fim do animal quando deixa de ser meio de retorno econômico.

Podemos pensar também em tração animal, entretenimento, testes, experimentos e tantos outros mais que associam-se também a abandono, descarte e por que não dizer miséria não humana? Em todos os campos do consumo e do uso de animais para fins que priorizam o que desejamos e secundarizam os interesses dos animais há explícita subjugação.

Isso não diz respeito só à morte, que é fim comum a partir desse sistema. O que representa nascer e viver para esses animais? O que pode significar estar no mundo para servir, sem direito de escolha, alguém? Nesse contexto, as imposições das impossibilidades, dos limites da vontade, aumentam a cada dia (há mais animais sendo explorados do que nunca) e ganham força com a extensão da omissão.

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