Nativa, a primeira escola vegana do Brasil

“É preciso pensar em como nossos hábitos de consumo impactam na vida dos animais humanos e não humanos”

“Nossas maiores preocupações são estimular o desenvolvimento cognitivo, social e psicológico das crianças” (Foto: Escola Nativa/Divulgação)

A Nativa Escola é a primeira escola vegana do Brasil, que defende tanto o respeito à vida humana quanto não humana. Fundada em João Pessoa, na Paraíba, e de frente para o mar, a instituição que recebe crianças de um a seis anos atualmente conta com duas turmas de educação infantil divididas em três ciclos multisseriados. Como cada criança possui um desenvolvimento cognitivo, psicológico e social diferente, elas passam por uma análise antes de serem admitidas ou irem de um ciclo para o outro.

Para falar sobre a proposta pioneira colocada em prática este ano, a VEGAZETA entrevistou a diretora da Nativa, Lindally Gonzaga, que é engenheira ambiental, ambientalista e bacharel em filosofia, além de fundadora do Instituto Animalista da Paraíba (Harpias), membro da Comissão de Defesa dos Animais da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional da Paraíba (OAB-PB) e especialista em zoonoses e saúde pública.

A Nativa Escola é a primeira escola vegana no Brasil? Como surgiu a iniciativa?

A Nativa é a primeira escola no Brasil a desenvolver uma metodologia vegana que não se limita apenas à alimentação, ou seja, que inclui nossas vestimentas, móveis, materiais educativos, a própria filosofia pedagógica e tudo o que for possível tendo como base a visão libertária do veganismo. A escola surgiu diante da necessidade de um grupo de mulheres por uma escola que tratasse integralmente das questões relacionadas ao respeito aos animais e ao planeta. Nesse grupo, estavam mães e familiares de crianças em idade escolar, protetoras de animais, ativistas e profissionais relacionadas ao desenvolvimento infantil que enxergaram a urgência decorrente da insustentabilidade ambiental e a importância da educação transformadora para modificar esse cenário.

 Quais são as principais diferenças se compararmos o trabalho da Nativa com uma escola convencional? Qual é a metodologia de ensino?

Primeiramente, há a preocupação básica com a alimentação: vegana e saudável, buscando o máximo de inclusão para as diversas necessidades alimentares. Em segundo lugar, nosso material pedagógico. Não usamos os livros didáticos do mercado, por acreditar que as atuais ofertas não contribuem com o desenvolvimento do senso crítico, mas com a cultura especista e de exploração dos animais e do meio ambiente. Por isso, confeccionamos nosso próprio material. Nossos brinquedos também são adaptados para mostrar os animais às crianças de forma respeitosa e sem exploração (cavalos não são para montar, não tem selas; o alimento, mesmo que no faz de conta, nunca é de origem animal, etc.). Para gerar esse senso crítico e autonomia na criança na educação infantil, temos uma metodologia democrática, além de inspirações na metodologia montessoriana personalizada.

Esse é o primeiro ano de funcionamento da escola? Como tem sido a recepção por parte de pais e alunos?

Sim, esse é o primeiro ano de funcionamento. A resposta das famílias tem sido positiva. Elas são, normalmente, bem participativas e compreensivas com as nossas atuais limitações (por ser o primeiro ano de funcionamento). Os alunos aproveitam bastante os espaços e gostam muito do ambiente, da rotina, dos colegas e das professoras. Estimulamos suas expressões individuais e formas de conhecer o mundo, ao mesmo tempo em que tentamos passar a elas o respeito aos demais.

E com relação ao corpo docente, todos os professores são veganos ou estão familiarizados com a proposta? 

Sobre os docentes, alguns já são veganos, outros ovolactovegetarianos ou já iniciaram mudanças de hábito que demonstram a preocupação com os animais, com a saúde ou o próprio futuro das gerações. Sempre buscamos promover palestras de conscientização e debates sobre o tema, compreendendo as particularidades de cada um.

Quais são as maiores preocupações da escola em relação ao aprendizado dos alunos? 

Nossas maiores preocupações são estimular o desenvolvimento cognitivo, social e psicológico das crianças, garantindo que elas sejam capazes de compreender o que é ser um cidadão no mundo de hoje: que entendam suas ações e as consequências delas, incentivando aquelas que resultem em um mundo mais tolerante e sustentável.

E com relação à alimentação, o que é oferecido? Quais são as opções?

Temos um cardápio diversificado sempre acompanhado por uma nutricionista e um cozinheiro sensacional! No lanche, oferecemos uma variedade de frutas de acordo com a época, um carboidrato acompanhado de proteína, como pães ou torradas com patês feitos na cantina da escola, além de cuscuz, milho, tapioca e bolos, também feitos aqui. No almoço, oferecemos arroz ou macarrão integral, legumes, feijão, moqueca, antepastos, carne de jaca, etc., sempre valorizando ingredientes acessíveis da nossa região. Temos também sucos diversos oferecidos pela cantina. Ah, e muita água de coco, porque estamos na beira da praia!

O modelo da Nativa Escola pode servir de exemplo para o surgimento de novas escolas veganas no Brasil? Já houve alguma interação por parte de outras escolas ou pessoas interessadas em levarem esse sistema de ensino para outras localidades do Brasil?

Esperamos e torcemos para que essa iniciativa seja uma inspiração para o surgimento de outras! Houve sim o interesse até mesmo de outros estados que também pensam em fazer algo parecido. No entanto, por parte da Nativa, ainda estamos dando passos pequenos, fortalecendo, primeiramente, a escola em João Pessoa. Sabemos que cada localidade e cada equipe terão suas próprias características. Nos colocamos sempre à disposição para conversar e, quem sabe, formar uma rede de apoio no futuro.

Vocês mantêm contato com outras escolas veganas de fora do Brasil, por exemplo?

Não tivemos contato direto, mas buscamos inspirações como a Muse School, ou outras escolas que, apesar de não serem veganas, trazem muitas coisas interessantes, como a Escola da Ponte, fora do Brasil, a Escola Inkiri, o Projeto Âncora e a Escola do Carmelo, no Brasil. Também internalizamos muitos ensinamentos da linha de Educação Humanitária, do Institute for Humane Education, consideravelmente divulgado pelo Instituto Nina Rosa aqui no Brasil.

Como vocês analisam a educação vegana no Brasil? O que é preciso para o surgimento de mais iniciativas como essa?

A educação vegana ainda é um tópico muito incipiente. Várias escolas públicas e privadas já iniciaram algum tipo de atividade relacionada ao meio ambiente, mas, normalmente, a conversa é restrita à ideia de separar o lixo ou cultivar uma horta. Não que essas questões sejam irrelevantes, mas é preciso ir mais além; pensar sobre questões sistêmicas – como nossos hábitos de consumo e como eles impactam na vida dos animais humanos e não humanos. Outras escolas já iniciaram esse tipo de conversa, mas ainda não adaptaram ao dia a dia das crianças e ao processo de aprendizagem em si. Acreditamos que é preciso ter mais coragem, desafiar o que estamos acostumados a ver no mercado e no sistema tradicional de ensino. Além disso, falta também desenvolver mais as bases teóricas e práticas para que mais iniciativas consigam se desenvolver e se espalhar.

Saiba Mais

A Nativa Escola funciona de segunda à sexta e oferece a modalidade de ensino em tempo integral.

1 COMENTÁRIO

  1. […] Outro exemplo é a Nativa Escola, considerada a primeira escola vegana do Brasil, que também defende tanto o respeito à vida humana quanto não humana. Fundada no Aeroclube, em João Pessoa, na Paraíba, e de frente para o mar, a instituição que recebe crianças de um a seis anos conta com turmas de educação infantil divididas em três ciclos multisseriados. Como cada criança possui um desenvolvimento cognitivo, psicológico e social diferente, elas passam por uma análise antes de serem admitidas ou irem de um ciclo para o outro. […]

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