No jantar, uma oração em gratidão pela matança de animais

Entendeu que orar pela comida é como orar pela violência se esta depende daquela

Ilustração: Paco Catalán

Diante da mesa, oração em gratidão pela comida, partes de animais bem servidas. Estranhou a tradição, que não é agradecer pela morte, mas como se fosse. Afinal, o que é carne? O que fica ao despojar alguém de vida. Entendeu que orar pela comida é como orar pela violência se esta depende daquela.

Percepção da gratidão pela comida persistiu. “Devemos agradecer pelo jejum pré-abate, cutucões ou choques a caminho do matadouro? Pelo tiro, degola, sangria? Medo e terror? Que tal pela sede e pelo calor dentro dos caminhões? E pelos litros de sangue que descem do corpo na hora certa para que a carne seja a mais deliciosa possível?”

E continuou em pensamento: “Se demorar, há de comprometer nosso prazer. Somos gratos pelos gemidos, guinchos e mugidos? Por não debater-se demais para morrer? Por não estragar a própria carne que vamos comer? Por ceder à morte com docilidade? Por não tentar fugir do box ou da cuba? Por ter boa inutilização cerebral? Por ser esquecido como se nunca tivesse existido?”

Quando terminaram, começaram a comer. Teve impressão de que a oração foi feita há muito tempo, e como se não tivesse sido feita. “Como é possível?” Mastigavam animais sobre a mesa com tanta vontade que começou a pensar naqueles da vida silvestre que chamam de “besta-fera”.

“A besta-fera é o animal irracional que come o que sua natureza determina, e o animal racional é aquele que come o que sua natureza não determina. Quem tem melhor justificativa para o que come?”

Não conseguia ignorar que matamos animais apenas porque queremos, não porque precisamos. “Quantos animais silvestres confinam centenas, milhares, milhões ou bilhões de outros até decidir matá-los para comê-los? Somos melhores por assá-los? Por que usamos garfos e facas? Por que fatiamos, embalamos, vendemos? Nem carnívoros somos.”

Concluiu que a barbárie está em nós, mas não a reconhecemos porque temos nosso verniz de civilização. “Uma forma estranhamente conveniente de industrialização, e levamos isso a um novo nível porque podemos financiar tudo que há de terrível nesse sentido, sem necessidade de conhecer ou de testemunhar. O quanto a crueldade do consumo civilizado é maravilhosa?”

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