No matadouro: “Passei mais de um ano matando animais que eu jamais comeria”

“Nem sei bem explicar o motivo, só fui perdendo o gosto pela carne”

Rocha afirma que às vezes pensava nos animais que matava; mas apenas quando bebia nos finais de semana (Foto: Tras Los Muros)

Aírton de Castro Rocha, de Maringá (PR), começou a trabalhar em um matadouro de médio porte por acaso. Ele estava desempregado e soube que precisavam de mais pessoas na linha de abate. Viu como a possibilidade de um trabalho provisório até conseguir “algo melhor”. “Não conhecia o serviço, mas não tinha muito segredo. A instrução até que era rápida”, relata.

Ele conta que a princípio era estranho atirar contra o crânio de um animal enquanto era observado pela vítima. “O bicho vinha da ducha, e a gente se encarregava de um disparo limpo e rápido.” Limpo e rápido? “Nem sempre, mas era o padrão que a gente vendia”, acrescenta.

Para facilitar o serviço, seguiu a sugestão de outro magarefe – esquecer que está diante de um animal cheio de vida e disparar como se estivesse diante de um alvo qualquer. “Ter um par de olhos na sua direção incomoda um pouco no início, porque olho de bicho é igual de gente. Mas depois você acostuma ou acha que acostuma. Só continua.”

Com o tempo, Rocha aceitou a realidade da atividade e começou a atuar também na degola de bovinos. “Passei mais de um ano matando animais que eu jamais comeria.” Questionado sobre o motivo, confidencia: “Nem sei bem explicar o motivo, só fui perdendo o gosto pela carne.”

E acrescenta: “E se matar boi é sua rotina, pode acontecer de um ou outro não querer mais saber de carne, pelo menos carne de boi. Diz que quem fabrica chiclete não chupa chiclete. Pode ser por aí, acho.”

Rocha afirma que às vezes pensava nos animais que matava; mas apenas quando bebia nos finais de semana, e que já sonhou com alguns deles o perseguindo pelas ruas. “Sempre terminava comigo caindo em um buraco e eles assistindo”, informa.

E complementa: “Acho que queriam me enterrar. Mais digno do que não ter o que enterrar, certo?” Mas também não refletia muito sobre o que isso poderia significar. Perto de completar 18 meses trabalhando no mesmo matadouro, pediu demissão para atuar na área de construção civil. “Melhor construir do que destruir, não é mesmo?”

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