O cavalo preso à carroça pensa que veio ao mundo para ser espancado

Uma reflexão sobre exploração animal a partir do livro “O Mestre de Petersburgo”, de J.M. Coetzee

O cavalo preso à carroça pensa que veio ao mundo para ser espancado

O sentido da carroça para o cavalo e para o humano 

No livro “O Mestre de Petersburgo”, o Dostoiévski de J.M. Coetzee diz que o cavalo não compreende que veio ao mundo para puxar carroça e exatamente por isso pensa que está aqui para ser espancado. “Pensa na carroça como um objeto enorme ao qual está amarrado para que não possa fugir enquanto está apanhando.”

Essa observação coloca em conflito o sentido da carroça para o cavalo e para o humano, porque questiona, a partir da experiência física de apanhar, o sentido da carroça no reconhecimento que ela não recebe pelo cavalo.

A carroça é um meio para o homem e outro meio para o cavalo – um meio de sobrevivência e ao mesmo tempo um meio de não sobrevivência. O que permite ao homem viver é o que reduzirá o viver do cavalo.

Os dois participam de uma mesma ação, mas com sentidos completamente diferentes para um e para o outro. E sendo o cavalo “a força da carroça”, essa força então é a força de estar lá para apanhar. E apanhar é sempre um efeito de um não aceitar.

A carroça então é, para o cavalo, um meio de tortura. E o homem é aquele que se coloca acima do cavalo determinando esse viver subjugado – seu próprio domínio.

Uma epistemologia da dominação 

Há uma epistemologia da dominação. O conhecimento do mundo do cavalo é gerado a partir do choque, da fadiga e da dor. Seu “saber” sobre a carroça é um saber corporal e traumático, não utilitário.

Enquanto o homem vê a linha entre o ponto A e o ponto B, que é expressão de seu interesse, o cavalo não tem real liberdade de movimento, sente o peso nas costas e a ameaça do chicote. São dois mundos que coexistem no mesmo espaço, separados por uma hierarquia de marginalizados e uma conflitante e distinta interpretação.

Ao não se reconhecer como um “natural puxador de carroça”, o cavalo apanha e esse ato de apanhar torna sua experiência como “puxador de carroça” uma experiência em que a carroça é somente um meio de apanhar.

Carroça cheia. O que favorece o homem é o que desagrada e fustiga o cavalo. O objetivo do cavalo nessa relação arbitrária nunca é o objetivo do homem. O conflito não cessa. O cavalo tenta, sem sucesso, garantir sua agência. Apanha por ela.

É como se cometesse o “crime” de existir como um ser com vontade própria. A pancada é a linguagem que recalca essa vontade, tentando reduzi-lo à pura função.

A vida do cavalo é a vida que existe fora dos limites do não domínio como impossibilidade

Isso externa que mesmo após 4,2 mil anos de domesticação, o cavalo tenta resistir de alguma forma, mesmo que não consiga prevalecer. A resistência não é um evento, mas uma condição contínua, mesmo que silenciosa e corporal.

A vida do cavalo é a vida que existe fora dos limites do não domínio como impossibilidade. Isso não é uma contingência, mas o imposto fundamento de sua existência. Sua vida é definida por essa impossibilidade. Ela é o horizonte inalcançável que estrutura toda a sua experiência no presente. O sistema de domínio (a carroça, o jugo, o homem) produz ativamente a “impossibilidade” como condição do dominado.

A “vida” do cavalo, portanto, é uma vida sob o signo permanente do “como se não”. Ele age como se pudesse ter outra finalidade, como se a carroça não fosse seu destino (o próprio Dostoiévski de Coetzee reflete isso quando diz que a “carroça é para o cavalo um objeto para ele ser espancado”), e é espancado por essa pretensão.

Sua existência é um testemunho vivo de que, onde há domínio absoluto, a verdadeira vida do dominado é relegada ao reino da impossibilidade. Mesmo assim, ele insiste em viver e morrer a partir dos vestígios dessa vida negada.

A importância de uma inversão radical da perspectiva 

Morrer mais cedo talvez seja o organismo do cavalo tentando retomar sua agência da única forma que pode, quando não há possibilidade de libertação.

A partir do que o Dostoiévski de Coezee coloca, e o que podemos concluir também com base na realidade, reconhecemos a importância de uma inversão radical da perspectiva.

Olhar para a carroça é olhar para o cavalo? Mas olhar para o cavalo é reconhecê-lo como o animal que é ou como o animal que fomos culturalmente levados a acreditar (pelo reducionismo conveniente do especismo) que ele é na inconsideração de seus próprios interesses?

Para mudar a perspectiva é preciso deslocar o centro da narrativa do “objetivo da carroça” para a “experiência na carroça” – e como essa experiência é, para a força motriz que a torna possível, uma construção de sofrimento e negação.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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