O fim do prazer pela carne

No almoço e no jantar, olhou as carnes no refrigerador e não quis comê-las, nem naquela semana, nem no mês seguinte, nem depois

Ilustração: Tommy Kane

Coxão mole, linguiça toscana e filé de frango era pedido conhecido no açougue que recebia sua visita duas vezes por semana. Não precisava nem articular palavra – apenas sorrir, receber e pagar.

Quando colocava os pés para dentro, logo uma sensação de frescor estimulava um sorriso. Achava o açougue um ambiente gostoso de frequentar, e os sons dos freezers, da serra fita, das facas e de tudo que cumpria função naquele cenário era-lhe um mundo harmonioso dedicado às delícias do paladar.

“Como me sinto bem aqui.” Observava a vermelhidão das carnes e a língua encostava no palato, manifestando desejo. Nem as filas grandes o intimidavam.

Aproveitava o tempo para vaguear olhos pelas vitrines, observar pedaços pendurados, lâminas atravessando carnes e a mioglobina escorrendo aqui e ali. Aos seus olhos, tudo era digno de prazer, de intensificação da vontade de comer.

Um dia, depois de receber as sacolas, caminhou menos de 500 metros até chegar em casa. Colocou as carnes sobre a pia e foi ao banheiro lavar as mãos. Assim que desligou a torneira, ouviu som estranho, de animais.

Saiu do banheiro e não escutou nada. Enxugou as mãos na toalha e o som continuou. Lá fora de novo e nada. Deixou pra lá. Preparou um pouco de cada carne para o jantar, comeu e deitou.

De repente, o som retornou, e não apenas o ouviu como o sentiu vindo de dentro do próprio corpo. Olhou para a barriga, esfregou com a mão e não percebeu nada. “Talvez eu esteja sonhando.”

E sentiu a barriga vibrar, como se algo quisesse sair, esticando pele. Saltou da cama e percorreu de novo o corpo com as mãos. “Será que estou sonhando ou não?”

De madrugada, escovou mais uma vez os dentes, usou enxaguante e não conseguiu livrar-se do gosto indesejado na boca. “Meu estômago não dói, mas é como se eu carregasse o peso todo do meu corpo dentro da barriga.”

Não conseguiu mais dormir. Abriu a janela e observou a rua até o dia amanhecer – testemunhando cães latindo nos portões e gatos miando dos quintais.

No almoço e no jantar, olhou as carnes no refrigerador e não quis comê-las, nem naquela semana, nem no mês seguinte, nem depois. Ainda sentem sua falta no açougue.

 

 

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