O preço do pernil

Entre passos e pequenos saltos, se aproxima de um homem comendo um sanduíche

Três pés e muita dificuldade para andar. Não desiste (Ilustração: Vanni Cuoghi)

Três pés e muita dificuldade para andar. Não desiste. Entre passos e pequenos saltos, se aproxima de um homem comendo um sanduíche. À sombra da sibipiruna, o rapaz leva um susto quando sente o focinho gelado tocando-lhe a panturrilha descoberta.

Solta um gemido doloroso e aponta o focinho para o próprio ferimento. Falta-lhe uma perna. O estranho continua sem entender o que aquilo significa. Entre mastigadas e desinteresse, se irrita quando o porquinho toca a mão com a cabeça. “Pelo amor de Deus, né? Você quase derrubou meu lanche. Vá pra lá, tá me irritando.”

Persistência. Entre duas fatias de pão, o último pedaço de pernil cai sobre um punhado de folhas. O rapaz se levanta. Sisudo, furibundo, esfaimado. Suor quente. A ameaça do chute não intimida. O pequeno o observa sem se mover. Ameaça. Sim, ameaça humana. “Te mato, caramba! Mato mesmo!”

O porquinho empurra o pequeno pedaço de carne e desenha com o focinho. “O que você tá fazendo?” Continua arrastando o focinho pelo solo. “Hã?” Um pernil, disforme, mas um pernil riscado na terra. No núcleo, um pedaço da carne suja. O porquinho deita no chão. Ganha uma perna incapaz de mover. Pouca carne. Carne sem vida. Riscos. É o que resta.

“Você quer dizer que comi sua perna?” O porquinho se levanta, o observa e vai embora. Dor, passos curtos e incertos, pulinhos, pulinhos alternados. A carne já não é carne. O rapaz cava um pequeno buraco com as mãos, enterra o pedaço de pernil e cobre com terra. “Que a minha busca pelo perdão triunfe sobre o prazer da gustação”, escreve no chão.

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