Perto dos 20 anos, repousa solitário no pasto

Curiosos admiram seu vigor, destacam-lhe a idade, a imponência preservada enquanto mira altaneiro o movimento na estrada. “E boi vive tanto assim?” Tem sempre a possibilidade, quando não arrancam-lhe o couro e o descarnam

Perto dos 20 anos, repousa solitário no pasto. Olha os que vão e voltam e depois não olha ninguém. Então recomeça. Na oscilação de atenção, faz o que tem vontade, nos limites da própria segurança.

“Não foi feito pra viver tanto”, dizem. Seria abatido com dois anos e meio, mas, destoando dos outros, o escolheram para não morrer. De seu tempo, não há mais ninguém, assim como tantos de estações posteriores.

Quem passa por lá pode pensar que é só mais um bicho ordinário num pasto, tomado pela velhice, descansando até a morte chegar. Mas que há de ordinário na longevidade de quem foi criado para pouco viver?

Poderia sim ser ordinário se a tantos permitissem envelhecer. Mas e a subjugação e a lâmina que os afastam da terra tão cedo?

Seus vizinhos parecem sempre os mesmos, por causa da curta pelagem branca, e da impercepção das formas, incluindo o formato da cabeça, cornos serrados e turvo contorno dos olhos, só que nunca são – porque logo se vão e chegam outros.

Curiosos admiram seu vigor, destacam-lhe a idade, a imponência preservada enquanto mira altaneiro o movimento na estrada. “E boi vive tanto assim?” Tem sempre a possibilidade, quando não arrancam-lhe o couro e o descarnam.

Entusiasmo consciencioso de alguns faz com que pensem em quantas vidas bovinas cabem na vida dum boi envelhecido.

“Quantos nascem e morrem em 20 anos?” “Mas velhice é parâmetro de atenção humana sobre o avanço do tempo.” “Não reconhecê-lo não significa não importar-se em perdê-lo.”

O boi levanta e passeia pelo pasto. Para e mastiga enquanto a aragem arrasta uma porção de folhas perfumadas em sua direção. Move a cabeça e um breve reflexo faz o par de chifres brilhar. Olha para cá e para lá, sem pressa, e volta a comer. É sua maneira de viver.

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