Como se alimentar de animais e ignorar tanto sofrimento?

Se você se permitir entender o quanto a vida de um animal é importante para ele, assim como a sua é para você, as chances de matá-lo ou comê-lo diminuem

Há um distanciamento da ideia de que um animal não é um produto (Foto: Aitor Garmendia/Tras Los Muros)

Como se alimentar de animais e ignorar o seu sofrimento? Afinal, por que as pessoas se alimentam de animais mesmo quando reconhecem que estão se alimentando de partes de animais mortos? Vejo três aspectos relevantes para entender um pouco essa questão. O primeiro é um fator historicamente cultural, ou seja, o distanciamento da ideia de que um animal não é um produto.

Isso foi reforçado a partir da Revolução Industrial no século 18, se estendendo em proporções aberrantes até os dias atuais. O vegetarianismo, ou melhor, o vegetarianismo ético, começou a ser formatado nos moldes atuais exatamente nesse período, o que pode ter sido uma reação a um novo nível de banalização da vida.

Mas voltando à questão, reconheço que há algumas décadas não era incomum os criadores terem algum tipo de vínculo ou afinidade com os animais. Na realidade, no Brasil, por exemplo, isso era muito comum até os anos 1970, pelo menos no interior do país. Sei disso porque parte da minha família viveu no meio rural.

Mas essa afinidade, mesmo quando culminava ou culmina na morte do animal reduzido a produto, era e é limitada; limitada por uma crença de que se você ver inúmeras semelhanças entre você e um animal, você não é capaz de matá-lo. Talvez de mandar que alguém o mate, dependendo dos níveis de conexão e desconexão.

Ainda assim, pode ser bem difícil você atentar contra a vida de um animal depois de reconhecer, talvez até mesmo por identificação, que ele é um ser de direitos com necessidades que pareçam similares às humanas, embora não signifique que sejam, até porque devemos considerar que cada animal tem a sua própria complexidade enquanto ser vivo senciente.

Sobre a desconexão, um exemplo que posso citar baseado em uma realidade histórica regional é que se evitava dar nomes aos animais, principalmente nomes humanos. Também não era recomendado manter contato diário que fosse além do essencial, como alimentá-los. E aqui falo da realidade dos pequenos criadores. Porque nas médias e grandes propriedades já havia toda uma estrutura que permitia um distanciamento muito maior.

Afinal, dependendo da quantidade de animais concentrados em uma área, é mais fácil não encará-los como “sujeitos de uma vida”, termo cunhado pelo filósofo Tom Regan. Para que a morte dos animais continue sendo perpetuada, é preciso que a desconexão seja predominante, e muitas vezes essa desconexão é baseada na ideia de que o animal está cumprindo o seu papel, que é servir como comida, logo há quem encare isso como um ato de nobreza, mesmo que mascarado por uma falsa premissa.

Sem essa desconexão, se você se permitir entender o quanto a vida de um animal é importante para ele, assim como a sua é para você, as chances de matá-lo ou comê-lo diminuem. Qualquer pessoa que experimente não apenas o entendimento, mas a sensibilidade do que é a vida não humana, tem grandes chances de não querer mais tomar parte nessa desnecessária exploração animal.

O segundo aspecto que considero relevante é a dissimulação da informação. Conheço muitas pessoas de grande sensibilidade, mas que estão imersas no fator cultural da legitimação da exploração animal. Mas sei, baseado no que vejo, que muitos desses abdicarão disso no futuro. Porém, ainda não o fizeram porque têm dúvidas, inclusive medo, sobre as consequências dessa decisão.

Ainda assim, creio que aos poucos a realidade tende a ser mais auspiciosa, conforme mais e mais informações forem compartilhadas e os mitos derrubados. Acredito que a única ferramenta para reverter isso é a conscientização, que varia de acordo com o emissor e seu nível de informação. Outro ponto de diferenciação é que já temos literatura sendo direcionada à educação vegana, o respeito aos animais para além do especismo.

É perceptível o receio das pessoas em tornarem-se vegetarianas ou veganas, um temor que desde o princípio do século 20 é alimentado por muita propaganda que existe não exatamente para garantir o bem-estar da população, mas para manter o status quo das grandes indústrias que atuam no ramo da exploração animal. E qual é o maior exemplo da eficácia dessa propaganda? Quando se tornam parte do ensino.

Ou seja, invadem escolas e universidades como testemunhamos há muito tempo. O que as instituições de ensino repercutem, quando ajudam a reforçar a falsa necessidade da exploração animal, é uma versão supostamente educativa da publicidade e da propaganda que ganhou muita força no século 20. Compare a propaganda com a educação nesse aspecto da objetificação.

É a mesma coisa, o que muda é apenas a linguagem. Afinal, se houvesse uma forte crença do quanto é desnecessário consumir, por exemplo, carne, leite e ovos, o que as grandes indústrias fariam? Elas não teriam como se sustentar no mercado, porque elas dependem de uma aprovação massiva, que poderia sair de controle com uma perda acentuada de consumidores.

Sob a perspectiva da indústria de produtos de origem animal, é preciso bombardear a população com informações diárias e constantes sobre a “importância” desse consumo. Sem propaganda, essa indústria não seria o que é.

E ela tem a seu favor o fato de que ainda podemos encontrar muita, muita gente mesmo, que nunca viu um porco vivo à curta distância, assim como um boi ou qualquer outro animal reduzido a produto, o que dificulta o processo de empatia e reconhecimento de direitos não humanos. Isso é mais comum do que podemos imaginar. E facilita bastante a dissociação entre vida, morte e comida.

É fácil encontrar pessoas no mercado que não sabem a origem do presunto, quero dizer, de qual animal é proveniente. Isso mostra o quão imersos estamos em uma realidade preocupante, em que muitas vezes as pessoas não se importam com o que consomem e as implicações disso, seja para outros seres ou até mesmo para elas.

E por que isso acontece? Porque elas acreditam cegamente na indústria. Não há um questionamento contundente. Quando existe, se volta mais para a “qualidade do produto”, não para o que é.

O terceiro aspecto é o paladar, que também está relacionado com o aspecto cultural e a dissimulação da informação. As agências de publicidade conseguem despertar um anseio no espectador ao trabalhar imagens positivas, repletas de cores associadas ao prazer da alimentação baseada na exploração animal – o que pode ser interpretado como um efeito sinestésico.

Além disso, sempre apresentam animais como seres felizes e caricatos ao darem sua vida para alimentar seres humanos, se enquadrando no que chamo de “dissimulação estética”. Qual animal seria feliz em morrer para alimentar alguém? Nenhum, já que isso não acontece nem mesmo na savana, imagine então no contexto da indústria de carnes, laticínios e ovos, onde muitos animais são condicionados à exploração intensiva, logo privados de uma vida livre da má intervenção humana.

É preciso considerar também que o paladar é um prazer sensorial que há muito tempo dita alguns hábitos da humanidade. Como lidar com o paladar quando falamos de exploração animal? Bom, o paladar só pode ser associado ao prazer se entendermos que o que estamos consumindo é plenamente satisfatório, sem levantar muitas dúvidas e questionamentos que coloquem esse hábito em xeque a ponto de propor real mudança.

Não há como algo ser satisfatório se a sua mente trabalha contra isso. Portanto, isso explica por que vegetarianos e veganos muitas vezes têm esse prazer anulado ou neutralizado. Até porque torna-se impossível não ver os animais que deram vida àqueles “produtos” nas vitrines dos açougues e nas seções de frios, por exemplo. Claro que nem todos são assim. Há quem sinta falta de produtos de origem animal.

No entanto, com o passar do tempo esse anseio vai desaparecendo cada vez mais, quem sabe, até se extinguir por completo. Ainda assim, é importante reconhecer que substituir o prazer da gustação, seja motivado por compaixão ou razão, é uma demonstração de que o paladar está abaixo de princípios mais importantes como a valorização da vida não humana. Afinal, você associa produtos de origem animal com as consequências negativas de sua produção – exploração, privação, sofrimento e morte.

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