Por que submetemos os animais à imundície?

Foto: Essere Animali

A sujidade de um animal criado para consumo é evocativa de sua condição de extrema subalternidade. Ainda assim, o ambiente sujo, seu corpo sujo e sua expressão podem permitir conclusões variáveis dependendo de nossa bagagem e predisposição – de como concebemos transigências e intransigências em relação ao que percebemos como “parte de um mundo ou realidade não humana”.

Há pessoas que podem logo sentir asco, nojo ao verem um animal em situação de sujidade. Outros podem lamentar por ele. Pode haver um sentimento predominante e instantâneo que estimula um anseio por distanciamento. Também pode haver preocupação, e que pode ser sobre o “momento”.

Difícil não seria reconhecer uma diversidade de reações conflitantes se a mesma cena for testemunhada por pessoas com percepções tão distintas sobre o que pode ou não ser aceitável em relação ao outro, um outro não humano.

Pode ser comum o anseio por livrar o animal de uma “realidade desagradável”, mas se o que chamo de realidade é apenas o “momento”, isso significa livrá-lo não dessa realidade, e sim “da instantaneidade que em mim gera desconforto”.

As expressões de um animal nessa situação podem significar muito ou podem significar pouco, não porque trazem pouca significação, mas porque o interesse humano pode dissimular, minimizar e ignorar significados. Também pode recriá-los a partir de uma concepção idealizada que permita tratar a diferença com indiferença.

Um animal na sujidade reflete também sua condição real e instrumentalizada da materialidade pela não vida, porque um corpo não humano sujo é evocativo das atribuições de valor, de esvaziamentos de si e de impostas ausências. Afinal, não é permitido que ele viva e morra senão pelo interesse humano.

Posso dizer que toda a sujeira que o envolve são sujidades transitórias, porém a transitoriedade é inerente ao processo que determina “o lugar não humano no mundo”, que também é “não lugar”, porque é trânsito constante e perpétuo de servilidade forçada. E a sujidade não é sobre o “momento”, e sim sobre condições de ser, estar e permitir, sobre nós em relação a quem reduzimos a produtos e o que isso favorece.

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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