Por trás da carne: Homem conta como era matar boi todo dia

Rubem: "Ainda tentava levantar, esfregando um pouco as pernas no chão, mas não tinha mais senso de equilíbrio. Era o seu fim”

“A gente atravessou um corredor estreito e entrou num lugar de onde dava pra sentir o cheiro de sangue de longe (Acervo: Greenpeace)

Antes de uma entrevista à VEGAZETA, encontro Rubem sentado em uma cadeira de fio trançado no quintal, observando em silêncio um bem-te-vi beber água. Ele já não se recorda quando começou a cuidar dos “animais voadores” que visitam sua casa todos os dias, mas conclui que isso já tem mais de dez anos. “Não tento me aproximar porque sei que eles não estão aqui pra isso, mas só pra garantir mais um dia de vida”, diz.

Hoje aposentado com pouco mais de um salário mínimo, Rubem alimenta os passarinhos que, segundo ele, já não encontram o que comer por nossa causa. “Assim como a gente, necessitam de água e comida”, comenta. O olhar remansoso daquele senhor de 72 anos não faz alguém imaginar logo de cara que passou mais de 30 anos “deitando bois” em quatro matadouros da região Norte do Paraná.

“Tem olhos, não é como a mandioca”

Rubem começou como “marreteiro” na década de 1970 e seguiu na função por duas décadas. “Era difícil alguém trabalhar nesse tipo de lugar por acaso, pelo menos na minha época. Cheguei lá por indicação porque eu era forte e estava acostumado na lida com a mandioca e a lenha”, conta. “Mas é diferente porque no matadouro você está lidando com algo que se mexe, tem olhos, não é como a mandioca.”

Um dia, o cunhado de Rubem que atuava em um matadouro disse que um marreteiro se acidentou e não voltaria mais a trabalhar lá, então havia uma vaga. “Era pouco, mas pagavam mais que na mandioca e na lenha. Acabei aceitando conhecer o serviço. Tinha mulher e dois filhos já e o salário não dava conta.”

Um encarregado e um marreteiro recepcionaram Rubem. O primeiro para conhecê-lo e avaliar se “levava jeito” para o serviço e o segundo para explicar como a “insensibilização” deveria ser feita.

“Dava pra sentir o cheiro de sangue de longe”

“A gente atravessou um corredor estreito e entrou num lugar de onde dava pra sentir o cheiro de sangue de longe. Era azedo e doce ao mesmo tempo, daquele tipo enjoativo, entende? Mais adiante o marreteiro pediu pra um rapaz liberar um boi. O bicho ficou empacado, não queria sair do lugar. Falaram que era melhor a gente ir lá.”

Três tiveram de arrastar o boi e o prenderam em uma caixa de concreto. O animal continuava agitado, mas já não tinha pra onde correr. “O marreteiro disse pra eu prestar atenção. Subiu em uma pequena base cimentada de tijolos, pra ficar numa posição um pouco mais alta e mais fácil de mirar a cabeça do boi. Então deu a primeira marretada, mas o bicho não caiu e se debatia, tentando escapar”, narra.

“Ralava o couro com força nas paredes. Veio a segunda marretada e ele deitou. Vi de perto. Ainda tentava levantar, esfregando um pouco as pernas no chão, mas não tinha mais senso de equilíbrio. Era o seu fim.”

“É difícil fazer um animal deitar de primeira”

Depois foi a vez de Rubem. “Quando você vê uma coisa dessa, é claro que não fica feliz, mas coloca na cabeça que é parte da vida e segue adiante. Foi pensando nisso e na minha família que marretei pela primeira vez um boi. É difícil fazer um animal deitar de primeira. Mesmo quando você é experiente, é a segunda ou terceira que faz o boi apagar. Se for um dia ruim, pode acontecer de ir além.”

Quando matou o primeiro bovino, Rubem não comemorou, mesmo com a confirmação da contratação. Tirou os olhos do animal caído e se afastou da caixa. Também não reclamou de nada, mas diz que notou um estranho vazio. Não ficou triste ou sentiu vontade de chorar. “Era como um buraco, entende? Uma coisa estranha que não entendi. Parecia que meu pensamento estava numa frequência bem lenta.”

Grilhões como “varais onde estiravam roupas”

O “vazio” continuou por mais alguns meses até desaparecer. “Talvez não tenha desaparecido, só deixado de se manifestar”, complementa. Foi isso que permitiu que Rubem continuasse derrubando bois a marretadas.

Com o tempo, já não sentia mais o cheiro de sangue que o incomodava – era como se sangue nem tivesse cheiro, e as carcaças que penduravam mais adiante nos grilhões eram como “varais onde estiravam roupas”.

“Se você vê morte de perto todo dia pode chegar uma hora que comece a achar normal ou então você pira.” Mas, segundo Rubem, há casos em que a situação foge do padrão.

“Matar bezerro é como matar criança. Nunca consegui me acostumar com isso. Se bem que não era todo dia, mas talvez o estranhamento venha daí mesmo. É complicado porque o bezerro entende menos ainda do que o boi ou a vaca o que acontece. Por isso no serviço a gente aprende que é melhor não olhar nos olhos.”

“Outros podem discordar, mas falo do que vivi”

Rubem afirma que não acredita muito em insensibilização, e que tanto a marretada, tão tradicional no atordoamento por muitas décadas, quanto a pistola pneumática, usada para inutilizar o cérebro do animal, não garantem que um boi não sentirá nada durante a degola.

“Outros podem discordar, mas falo do que vivi. Quem trabalha em matadouro sabe que isso não é feito tanto pelo ‘bem’ do animal, mas pelo ‘bem’ do consumidor, de quem vai comprar carne; e do frigorífico também, claro. Eles ficam felizes em acreditar que o animal não ‘sentiu nada’, e isso não precisa ser verdade, pode ser apenas uma crença para garantir que as coisas continuem como estão.”

O aposentado diz que perdeu as contas de quantas vezes testemunhou bovinos pendurados por uma pata tentando se soltar mesmo depois da “insensibilização”. “Se eles não sentiam nada, acho que não teriam razão pra continuar lutando pra escapar da degola. Hoje a gente vê essas coisas com outro olhar, porque você já não está lá dentro, então ganha uma percepção um pouco diferente da realidade.”

Boi caiu “só na sexta marretada”

Rubem se recorda de um boi que só caiu na sexta marretada, e isso não aconteceu porque ele não acertava o crânio do animal. “Não saberia te dizer como isso se deu, porque eu não era de errar o golpe. Foi o boi que conheci que mais lutou pra não morrer. Quando o penduraram pra degolar, ainda conseguiu soltar a perna e ficou caído e se debatendo, pra não deixar ninguém chegar perto. Acabou morrendo no chão mesmo depois de alguns minutos. Um rapaz, ainda novo no serviço, ficou muito assustado e pediu demissão naquele dia.”

Agora avaliando a realidade do abate de animais para consumo, o ex-marreteiro sustenta que no matadouro “todo boi morre duas vezes”. “Mesmo quem trabalha com isso sabe que é uma coisa cruel, porque o boi é um animal que morre mais de uma vez. Você tira tudo que ele é na marretada ou na pistola de dardo, porque o bicho perde a essência, a sua natureza. O que fica não dá mais pra chamar de boi, já é um pedaço de carne que respira com dificuldade. Então ele já se acabou ali. Daí vem a degola, que é uma segunda morte pra garantir que sobre apenas uma carcaça. Eu não via as coisas dessa forma quando ainda estava lá dentro, mas em algum momento a vida faz a gente pensar com profundidade em algumas coisas.”

Rubem também trabalhou por dois anos na degola de animais e três anos atordoando bovinos com pistola hidráulica de dardo cativo. “Deixei a marreta no final dos anos 1990. Trabalhei na sangria de boi e depois abati animais com pistola até me aposentar. Se me perguntar qual parte foi pior, digo hoje que todas. Não tem parte boa, porque matar não é uma coisa que te deixa feliz ou te dê satisfação, a não ser que você seja anormal. Mas quando se acostuma, só percebe a dimensão disso tudo quando essas experiências se tornam lembranças. E ninguém esquece isso, porque é uma coisa que tem peso, e não é pouco.”

Observação

Rubem é um nome fictício para preservar a identidade do entrevistado.

2 COMENTÁRIOS

  1. Que tristeza, o ser humano não evoluiu ND, uma pessoa assim não terá paz aqui, nem qdo morrer. Há outras opções para não participar desses massacres.

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