Categorias: Contos e Crônicas

Quando todos os animais resistiram aos matadouros

Pintura: Hartmut Kiewert

Sonhou que todos os animais criados para consumo recusaram-se a entrar em caminhões que os transportariam aos matadouros. Ficaram parados, lado a lado e enfileirados. Quem se aproximasse, eles formavam barreira e resistiam a qualquer investida.

Em uma fazenda de gado, alguém achou que seria boa ideia matar um ou outro para servir de exemplo aos demais. Isso repetiu-se em granjas de frangos e porcos, mas fortaleceu a resistência desses animais, que já não atendiam a qualquer comando humano.

Impor medo, terror, não surtia mais efeito. Sabiam que morreriam como produtos, e fariam de tudo para evitar este fim. Alguém definiu essa transição como uma “expansão coletiva de consciência”, desenvolvida ao longo de décadas pelos animais subjugados pela humanidade.

Eles aprenderam a se comunicar melhor do que nós e começaram a usar isso a seu favor. Isolar um animal então tornou-se tarefa impossível, porque já não agiam nem reagiam sozinhos. Por outro lado, por mais fortes e resistentes que fossem, não superaram as armas humanas, e muitos foram mortos.

A legislação que proibia execução de animais saudáveis fora dos matadouros era ignorada como se não existisse. Em algumas regiões, a matança resultou em pilhas e mais pilhas de corpos de animais que poderiam ser vistos de longe em estradas rurais e rodovias.

Se alguém fosse punido, outros os substituíam e continuavam a carnificina. A recusa à produtificação despertou o pior em quem os explorava. Mas isso não tornou os animais mais suscetíveis aos matadouros como foram no passado. Eles começaram a fugir em grandes grupos, e resgataram e aperfeiçoaram as habilidades de sobrevivência de seus antepassados.

Enquanto os humanos os caçavam, a humanidade também passou a viver em confinamento. E quando poucos desses animais eram capturados e abatidos, suas carnes não poderiam ser comercializadas, porque aprenderam a sintetizar veneno dentro de seus organismos.

Isso marcou o fim de uma era e o entendimento de que mesmo que continuassem matando esses animais, nunca mais poderiam consumi-los.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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