“Quando você mata frango todo dia, você não come”

Tudo com a cabecinha pra baixo, e os olhos tentando procurar a gente. Foi muito esquisito e triste porque eu sabia que eles estavam vivos”

“Nunca tinha visto tanto bichinho num lugar só pra ser morto ao mesmo tempo” (Fotos: Getty)

Gisiele dos Santos Barbosa atuou por cerca de dois anos na linha de abate de uma avícola no Noroeste do Paraná. O seu trabalho consistia em degolar aves penduradas com a cabeça para baixo em uma nória mecânica – equipamento que permite que os animais sejam mortos em série.

“A primeira vez que vi aquele equipamento fiquei chocada, porque nunca tinha visto tanto bichinho num lugar só pra ser morto ao mesmo tempo – fileiras que pareciam não ter fim. Tudo com a cabecinha pra baixo, e os olhos tentando procurar a gente. Foi muito esquisito e triste porque eu sabia que eles estavam vivos”, narra.

A empresa onde Gisiele trabalhava já abatia centenas de milhares de frangos por dia, e saber que a cada segundo o número de vidas diminuía e o número de mortes subia diante de seus olhos não parecia saudável para ninguém.

Ela conta que às vezes, o que na realidade não era muito raro, as aves chegavam na zona de sangria ainda se debatendo, resistindo a morrer.

“Os frangos recebiam o choque [eletronarcose] pra diminuir a resistência e a contração muscular. Diziam que fazia o animal sofrer menos, mas se olhasse pra eles, você percebia que ainda sentiam alguma coisa. Acho que o corpo, já fraco pelo choque, não falava tanto quanto o que a gente conseguia enxergar olhando bem pra eles.”

Gisiele relata que chegou um momento, após as primeiras semanas, em que decidiu que se quisesse continuar trabalhando naquele lugar não poderia mais prestar atenção nos frangos – pelo menos não diretamente, como fez até começar a ganhar experiência.

Mesmo que a matança naquele contexto já tivesse sido naturalizada em sua rotina, ela revela que deixou de comer carne de frango no segundo mês trabalhando na linha de abate. “O cheiro começou a me incomodar muito, querendo ou não. Não importava onde eu estivesse, onde tinha frango, o cheiro pra mim era sempre o mesmo, o cheiro do abate. Quando você mata frango todo dia, você não come”, frisa.

Ela lembra que um dia colocou o dedo perto da cabeça de um frango e sentiu a respiração dele bem intensa antes da sangria. “Isso foi acho que na segunda semana. Comecei a tremer e não consegui degolar porque parecia gente respirando. Um colega percebeu e veio falar comigo. Ele disse que a gente não se acostuma com a verdade, mas cria uma pra fazer o que faz enquanto se pode suportar.”

E acrescenta: “Outro dia, tinha passado uns três minutos de sangria, e um frango ainda se debatia. Ele se debateu com tanta força que se soltou da nória e caiu no chão. Ele tentava se levantar e fazia um barulho diferente, que parecia um gemido bem doído. Dava pra ver o desespero dele. Não queria morrer de jeito nenhum.”

O animal continuou vivo por mais alguns minutos, mesmo depois da sangria, e acabou descartado no lixo. Hoje, Gisiele dos Santos Barbosa defende que a insensibilização é uma ilusão porque, na sua percepção fundamenta na sua experiência, faz parecer que o animal não sente mais nada, quando ele não tem mais é forças para reagir à situação.

“A gente tem mania de achar que só está sofrendo quem demonstra isso da forma mais clara possível, mas acho que não é bem assim. Se você estiver muito fraco, sua dor pode ser a pior do mundo pra você e pode ser que ninguém perceba a dimensão disso”, compara.

Gisiele pediu demissão da avícola há quatro anos. Questionada sobre o que a fez ficar dois anos lá, ela respondeu:

“Você se acostuma, é verdade, por pior que possa parecer dizer isso; e estava desempregada também, e você se obriga a começar a crer que não são vidas, mas apenas ‘uma coisa’ que você tem que cortar todos os dias. No meu caso, acho que foi um tipo de se acostumar não se acostumando, porque foi depois de trabalhar lá que percebi que eu nunca mais colocaria um pedaço de frango na minha boca, e hoje não importa de onde venha.”

Ela acrescenta também que uma das experiências que mais a marcou foi quando disseram que na hora de degolar o frango tem que deixá-lo respirando enquanto quase todo o sangue se esvai. “Achei cruel. Você não pode cortar a traqueia porque dificulta a sangria. Então você vê o animal respirando. É como se dissesse: ‘Olha, eu tô vivo e não quero morrer”; e o sangue todo dele indo embora. É tão vermelho que chega a ser assustador nos primeiros dias.”

Outro episódio citado por Gisiele envolve frangos que tentaram escapar do abate quando eram tirados das caixas. Um rapaz que trabalhava com ela foi demitido porque se recusou a abater três frangos capturados às margens da rodovia após uma fuga que não durou mais de dez minutos. “Ele ficou com dó, e disse que se não fosse demitido, pediria demissão de qualquer forma. Foi nesse dia também que pedi minha demissão.”

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