Quem pensa na dor do frango?

Ilustração: Tommy Kane

No aviário, viram muitos frangos sentados. Não conseguiam ficar em pé. Achou estranho. “Como pode nascer, crescer e morrer em um mês ou pouco mais que isso?” “Ora, sempre tem gente querendo comer. É o apetite que encurta a vida. Imagine como será daqui 20 anos. Talvez vivam 15 dias. Quem duvida?”

Um frango tentou correr, mas não havia espaço, apenas um grande amontoado. Com tanto peso sobre as pernas, caiu de lado e ficou, sem conseguir mudar de posição. Fazia força e nada. E os outros, tão acostumados àquela realidade, nem reagiam mais – apenas aceitavam.

“Você não viu um ali que quebrou as pernas caminhando. Ficou agonizando com o peso do corpo sobre os pés. Acha que frango gosta de carregar tanto peso em tão pouco tempo? Corpo desproporcional, distúrbio metabólico, problema respiratório, calcificação e deformação óssea. Tem problema cardíaco também.”

“Quem diria que um bicho que engorda pra morrer tão rápido pode ter uma vida miserável? E você achou que as articulações sempre acompanhariam o desenvolvimento geneticamente forçado?”

Definiu o lugar como um centro de enfermidades aviárias que a maioria não vê ou julga irrelevante. “Como presenteiam esses pobres animais com problemas de saúde. Dizem sempre que o mais importante é não prejudicar a carne. Se a carcaça dá lucro, o resto é irrelevante.”

De repente, sentiu cheiro de antibiótico. É pra todo frango – de uso preventivo. “E quem toma isso pra prevenir alguma coisa? Você tomaria?” Não é a primeira nem a última dose – só mais uma. “Como cuidam da saúde dos frangos? Não. Como zelam pelo lucro da carne…”

“Nascer, engordar e sair daqui só pra morrer é triste. Como não seria? E há um passeio entre grades antes do choque e da sangria.” “Mas e aqueles que nem daqui saem porque não resistem a esta miséria?”

“Bem pensado!” E apontou para um tambor com corpos sem vida sendo recolhidos atrás de um galpão. “Nem todos vão ao matadouro, mas a morte precoce chega para todos. É a voracidade da humanidade no controle.”

 

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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