Quem pensa no porco quando come sua carne?

O que menos diz sobre o valor de suas existências, e quem são, são suas próprias carnes

Foto: Luke Chueh

Enquanto Bia comia lombinho de porco e enroladinho de bacon, ele olhava para Nestor e para o prato dela.

“Nestor só não está nesse prato porque não cresce muito. Do contrário, coitado, seria comido também. Mas ele não é diferente dos outros porcos domésticos criados para comer, excetuando tamanho. E a sociedade e suas manias estranhas e preconceituosas de seletividade diz que ele é ‘pet’, que também é forma de consumo – a diferença é que não chega ao prato. É um termo tão ridículo e coisificado, não? Imagine ser classificado como ‘pet’. Ser ‘pet’. Ninguém deveria ser chamado de pet, em língua nenhuma.”

Deixou de guardar pensamentos. “Bia, se Nestor crescesse muito, o que você faria?” “Não sei, mas ele é mini pig então não cresce muito.” “Tudo bem. Você sabia que Nestor pode viver por 15 anos enquanto porcos criados para abate podem viver até 20? A gente sabe que eles não passam de seis meses, mas porque as pessoas querem comer não porque não têm capacidade.”

Bia não gostou da conversa, fez careta e abocanhou outro enroladinho de bacon. “É, Nestor, ninguém tem hábitos mais estranhos do que o ser humano”, pensou sem dizer nada, afagando a cabeça do mini pig, que estava a menos de dois metros de distância do prato com partes bem temperadas de seus semelhantes.

Olhou nos olhos de Nestor e lembrou da expressão dos suínos que viu a caminho do matadouro. “Lá tristeza, aqui esta ausência que desconhece tal violência.” Recordou-se que no último Natal os pais de Bia assaram um leitãozinho que não era maior que Nestor.

“O paradoxo do consumo explicita que dependendo de onde um animal vem ele deve ser comido e o outro não, ainda que tenham partes iguais, mesma aparência e compartilhem semelhantes características; e manifestem emoções e sentimentos dos quais não se pode subtrair valor”, refletiu.

“Temos um sistema que diz que a morte de um animal é determinada pelo rendimento de sua carcaça em proporção a tempo hábil. Isso é o que menos deveria importar quando falamos de animais, e os consideramos como tais. Afinal, o que menos diz sobre o valor de suas existências, e quem são, são suas próprias carnes.”

 

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