Por que não reconhecer partes de animais como partes dos animais?

Uma reflexão a partir de uma promoção de mocotó em que funcionárias de um açougue dançam com pés de bois

Fotos: Sinergia Animal/Pixabay

Em um vídeo, funcionárias de um açougue anunciam uma promoção de mocotó enquanto dançam. Um exemplo que evidencia a invisibilidade dos animais é que elas balançam pés e canelas de bovinos; é como se essas partes não estivessem lá, mas apenas “uma coisa comestível”.

Elas demonstram animação conforme balançam partes de vários animais, em uma cena clara, porque sequer há uma dissimulação estética – é a parte do animal e uma parte que não pode ser não reconhecida (embora o reconhecimento tenha variáveis que podem aproximar de uma percepção tanto quanto não podem).

Ainda assim, em comentários sobre o assunto, não há observação sobre animais, sobre ser pés (ou patas) e canelas – os comentários se resumem ao mocotó, ao gosto pelo mocotó.

Se pensarmos somente nesses membros inferiores dos bovinos, e ignorarmos que é a partir deles que surge o mocotó, não é estranho reconhecer que o que é colocado em exposição é o que permite a um animal se locomover, e que é parte de sua sustentação como vivente? Mas não é nisso que as pessoas normalmente pensam ao observar alguém balançando os pés de um animal no açougue.

Os pés não estarem no corpo do animal, estarem “limpos” e em um açougue é como se enviasse a mensagem: “Aqui não há motivo para pensar no animal, porque não é sobre o animal, e sim sobre o que se deseja comer, que existe para a ação de comer” – ainda que seja algo que um animal usou, como parte de sua constituição física, para ir de um espaço a outro, até ser subtraído dele pela violência da morte.

O animal então é impensado, e se reconhecida a origem de uma “parte que será comida” como bovina, não é no bovino como criatura que vivia que se pensa, mas no bovino como termo referente a um tipo de fonte de produtos, a uma classificação de cárneos e subprodutos.

A reflexão não é sobre fazer críticas às funcionárias do açougue, mas propor uma ponderação sobre “hábitos socialmente legitimados”, já que elas estão inseridas nesse contexto de invisibilidade animal porque também estão acostumadas, pela normalização cultural e institucionalizada.

Leia também “Não é estranho comer o pé de um animal?

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

2 respostas

  1. De fato, pois o que é a Gastronomia senão um encobrimento ou um disfarce requintado da realidade por meio da linguagem?

    Se estiver em francês ou algum idioma europeu, aí é que se “eleva” o requinte.

    Mas são restos mortais, vísceras, fígados doentes, membros, músculos etc.

    Trabalho numa livraria. Dentro da instituição também funcionam um Café e um Restaurante. Não há nenhum prato no cardápio em que faça qualquer menção ao animal, ao que ele ou ela foi um dia.

    As pessoas olham o menu falam “eu quero um picadinho”, “me vê um tropeiro [barriga de porco]”, “vou querer um [bife] acebolado”, “ah, acho que vou na moqueca”, “hum, quero a galinhada” etc etc.

    Dia desses, o Chef do restaurante estava almoçando na copa e, ao ser perguntado o que estava comendo, disse com um certo ar de indiferença e desembaraço: coração de boi.

    Nesse caso, não houve um eufemismo, um termo gastronômico que tentasse suavizar o órgão ali assado no prato, era tão somente aquilo que era: o coração de um bovino.

    Eu ali no meu canto, almoçando, fiquei calado porque, afinal, o que eu poderia dizer?

    Era um coração.

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