Santuário muda a vida de animais que seriam abatidos no RS

Em março, Márcia, Luiza e Fabiana Willers fundaram em Cruzeiro do Sul (RS) o Santuário Amor que Salva, transformando a vida de animais reduzidos a produtos

Fotos: Santuário Amor que Salva

Em março, Márcia, Luiza e Fabiana Willers fundaram em Cruzeiro do Sul (RS) o Santuário Amor que Salva, nome que faz referência à lição que os animais dão sobre a importância do amor incondicional e sua capacidade de transformar o coração e a mente humana.

Mas a história da família cuidando de animais não é recente. Antes da transição para o veganismo em 2017, elas já realizavam resgates de cães e gatos há anos.

No entanto, como viviam na área urbana, foi a impossibilidade de abrigar animais de outras espécies, e que são vítimas de maus-tratos e da exploração humana, que motivou uma grande mudança.

“Mesmo totalmente inexperientes a respeito de como lidar com os animais, a cada ano que passava sentíamos mais a necessidade de ter contato e poder dar uma vida a esses seres vítimas de exploração da indústria da carne, leite e ovos”, relatam.

Hoje, elas são responsáveis por 57 animais, incluindo cães, gatos, porcos, bois, aves, coelhos, cavalo e ovelha.

“Quando resgatamos Joaquim em outubro de 2019, vítima da indústria do leite, não conseguimos fechar os olhos para os outros incontáveis bezerros descartados que víamos quando buscávamos leite para o Joaquim.”

Além disso, com a aquisição do sítio em julho de 2019, a família vegana viu na fundação do santuário uma boa oportunidade de proporcionar um contato com os animais que pudesse aproximar outras pessoas do veganismo.

Em entrevista à VEGAZETA, Márcia, Luiza e Fabiana falam sobre os mais diversos aspectos que envolvem a vida e o trabalho no Santuário Amor que Salva. CONFIRA:

Como os animais chegam até vocês? 

Fora alguns cachorros, praticamente todos os animais do santuário são pedidos de resgate de vítimas de maus-tratos e abandono. Com os bezerros foi diferente, como somos cercadas de pessoas com vacas para produção de leite, fomos até o local para resgatá-los no dia em que nasceram.

Há quantas pessoas envolvidas com o trabalho no santuário? Como é a rotina?

Somos em três mulheres que moram no santuário e temos um funcionário que nos auxilia todos os dias. Diariamente, entre 6h e 7h (até porque é nesse horário que o Joaquim, Francisco e Noah, nossos bois, começam a reclamar para receber comida), pelo menos uma de nós alimenta e cuida de todos os animais, e essa função se repete no horário do almoço e no fim da tarde. Desde que nos tornamos veganas, tentamos alimentar os seres sob nossos cuidados com o mínimo possível de produtos de origem animal (como é o caso da ração para os cachorros). Então pelo menos quatro vezes por semana cozinhamos uma mistura de ingredientes como arroz, proteína de soja, batata, caules de hortaliças, cenoura…reutilizando também as sobras de comida. Além disso, para os cachorros fazemos bolos com ingredientes como farinha de amendoim, farinha de aveia e alguns ovos das nossas galinhas (nossas galinhas comem a maioria dos ovos).

Vocês contam com apoiadores, colaboradores? Como fazem para custear as despesas? 

Ainda não temos nenhum colaborador fixo. Então subsidiamos nossos gastos como cuidado e alimentação dos animais a partir dos nossos empregos. Hoje enxergamos o quanto essas despesas são altas, então, como uma alternativa pontual para continuar com os resgates, criamos a vaquinha.

Há também outras formas de doações? Como vai funcionar a campanha de apadrinhamento? Começa a partir de quando?

A partir da ajuda de uma voluntária, vamos conseguir criar um site e assim divulgarmos possibilidade de doações mensais e do apadrinhamento que funcionará da seguinte forma: as pessoas podem conhecer os animais e sua história através do site e escolher seu afilhado, contribuindo, assim, com um determinado valor mensal.

Quais são as demandas mais urgentes do santuário hoje?

As demandas atuais do santuário estão relacionadas ao tratamento do Valentim (nosso coelho paraplégico), à reabilitação e castração do Salvador (nosso cavalo arisco vítima de maus-tratos), à construção da cerca (e recintos) para ampliarmos a área de acesso aos animais e podermos fazer novos resgates. Hoje gastamos em torno de R$ 4 mil com alimentação (ração, feno, silagem, milho, hortaliças, frutas etc.), porém como os animais estão crescendo, necessitam cada vez mais de uma maior quantidade de comida e esses gastos estão ficando altos para arcarmos sozinhas.

De que forma os animais salvaram vocês?

O nome do santuário “Amor que Salva” está interligado com a nossa transição com o veganismo. Quando finalmente nos deparamos com a crueldade a que os animais são submetidos na indústria do leite, carne e ovos, não conseguimos mais fechar os olhos e um forte sentimento de desesperança e tristeza fez parte dos nossos dias. Quando estamos com eles, conseguimos acreditar em sentimentos puros e verdadeiros. Através deles descobrimos a forma mais simples de ser feliz, que é dar e receber amor de forma incondicional. Cuidar e conviver com os animais tornou-se um propósito de vida.

Poderiam destacar uma ou duas histórias de animais que hoje vivem no santuário? Há casos de animais que seriam abatidos ou que passaram por uma grande mudança em suas vidas?

Dos animais que cuidamos atualmente, vários já teriam sido abatidos: a maioria dos coelhos, os quatro porcos e o bezerro holandês (Joaquim), que é morto assim que nasce. Joaquim foi resgatado e salvo porque nos comprometemos com o proprietário em buscá-lo assim que nascesse, e assim fizemos. O resgatamos com horas de vida, atirado e amarrado em um canto sujo. Com os porcos o resgate foi um pouco mais complicado. Policiais invadiram uma propriedade localizada na zona rural, onde traficantes acabaram mortos. Como eles tinham dois cães da raça pitbull, foi contatada uma ONG para o resgate. Descobriram no fundo da propriedade um chiqueiro sujo e improvisado, com quatro porcos de mais ou menos dois meses de idade. Até esses animais serem percebidos ficaram dois dias sem água e sem comida. Isso chegou até nós porque essa ONG postou em alguns grupos a situação dos porcos. Fomos com a polícia e a fundadora da ONG para resgatá-los e ficamos com os quatro porque ninguém mais se manifestou para cuidar deles (sem intenção de abatê-los). São dois machos e duas fêmeas que hoje chamamos por Edna, Elisa, Estevão e Enrico. Trouxemos para o sítio, construímos um lugar para abrigá-los e castramos os machos. Os porquinhos chegaram bastante traumatizados porque além de viverem em um local muito deplorável até aquele momento, tiveram seus dentes arrancados provavelmente quando bebês, como é padrão na indústria de carne suína.

Como as pessoas reagem quando sabem que nesse local os animais recebem somente respeito e carinho, nada relacionado à exploração? 

A maioria das pessoas fica assustada e não entende quando contamos sobre o propósito do santuário. Tivemos contato com muitos que sobrevivem da exploração animal (principalmente quando íamos comprar o leite roubado para o Joaquim, Francisco e Noah) e era muito difícil ouvir razões e justificativas atreladas à religião ou a motivos como “os animais estão aqui na terra para nos servir” sempre que tentávamos discutir sobre a alimentação vegana e/ou exploração animal. Com relação a outras pessoas com quem convivemos (trabalho, amigos e familiares), achamos que a maioria pratica hoje um processo de dissonância cognitiva com relação ao veganismo para justificar suas atitudes. Então quando mostramos nossos vídeos fazendo carinho ou contamos histórias de quando chamamos nossos porcos ou bois pelos nomes e eles vêm correndo por realmente entenderem que estamos falando e interagindo com eles, a maioria das pessoas fica surpresa, pois não enxergam esses seres como alguém, e sim como produto. Buscamos sempre desenvolver uma relação muito próxima com os animais para poder propiciar carinho, amor e tentar despertar em outras pessoas um sentimento de reconhecimento como indivíduo digno de respeito. Por outro lado, entendemos que eles não estão aqui para serem apenas nossos amigos e, independente de os animais não quererem contato com humanos, ou até agirem de forma agressiva às vezes, devem ser respeitados da mesma forma.

Vocês têm planos ou algum projeto que gostariam de colocar em prática envolvendo o santuário?

Ainda não temos planos ou projetos envolvendo o santuário, mas ficaríamos muito felizes em fazer parte. Por exemplo, há diversos restaurantes veganos na região e na capital nos quais poderíamos desenvolver projetos para ajudar os animais. Não fomos atrás para conversarmos a respeito, mas sempre estaremos dispostas e planejar algo em prol dos animais. Quando não vivíamos no santuário, sonhávamos em fazer resgates e propiciar uma vida boa aos animais. Imaginamos que outras pessoas tenham o mesmo sonho que tínhamos e, agora que temos espaço, desejamos ser o meio para que isso aconteça, porém reconhecemos que precisamos de estrutura e sustento para que isso se concretize. Portanto, queremos muito continuar a fazer os resgates de outros animais, e qualquer apoio para arcarmos com as despesas será muito bem-vindo.

Clique aqui e realize uma doação para o Santuário Amor que Salva

Clique aqui e acompanhe o santuário no Instagram.

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