Seara apela para comercial “good vibes” para vender carne processada

Acredito que a música e o vídeo não têm nada a ver com os produtos vendidos pela Seara

“Um abraço carinhoso, o sorriso mais gostoso, um momento bom, sem hora pra acabar…” Se você assistiu alguns clipes no YouTube nos últimos dias, é provável que você já tenha visto o novo comercial da Seara.

Acredito que a música e o vídeo não têm nada a ver com os produtos vendidos pela Seara. “Eu só sei que gosto assim, isso é tudo que desejo pra você e pra mim”, diz o pré-refrão. A atmosfera familiar do vídeo é envolvente, mas se você agir racionalmente vai perceber que falta sentido.

Como falar em um momento bom, sem hora pra acabar, enquanto você motiva alguém a consumir carne processada como se fosse algo não apenas satisfatório, mas quiçá mágico? É tudo que desejo pra você e pra mim? Sério?

O que vemos durante o comercial? Hambúrgueres, calabresa e feijoada. Acho que não é necessário dizer que a carne processada tem sido associada a diversos tipos de câncer e problemas cardíacos. Uma pesquisa rápida no PubMed e na Scielo te traz uma série de referências científicas.

Também me parece paradoxal associar alimentos de origem animal com uma atmosfera “good vibes”, que inclui ainda amor, cumplicidade, respeito e companheirismo. Me refiro a um comercial onde as pessoas estão felizes se alimentando de algo que não existiria sem sofrimento e morte de animais.

Isso é “good vibes”? Talvez sob um preceito artificioso e jocoso de conveniência. E claro, temos mais um caso de dissimulação estética e factual. Ou seja, a mensagem sobre os produtos é reforçada positivamente pelo seu caráter dissociativo e distorcido em relação à própria origem.

No comercial, não há nada que associe os alimentos da Seara, baseados no abate de animais, com qualquer emoção ou sentimento que possa dirimir ou desmotivar a predisposição do público em consumi-los. Claro, nem seria diferente.

A paradoxal artificialidade daquele pequeno simulacro de ”belezas e prazeres da vida” é o que reforça um tipo capcioso de romantismo do consumo, fundamentado não apenas na negação da realidade, mas na contumaz rejeição ao que não diz respeito a nós.

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