Categorias: Contos e Crônicas

Sentiu-se feliz onde as pessoas não exploram animais

Pintura: Hartmut Kiewert

Sentiu-se feliz onde as pessoas não exploram animais. Veio como um sonho saltado à realidade e vagou por todos os lados imaginando encontrar uma criatura não humana subjugada. Não a achou. Então acalmou seu coração, que antes palpitava pela incerteza e desconfiança.

“Não é o primeiro. Há descrença sim; não reprovamos. Quem não desconfia dessa extensão de condenação da exploração? Agora há uma realidade diferente, de uma vida diferente, e contagiamos quem podemos, e assim o que parecia diminuto vai se engrandecendo pela dimensão de nossa vontade, que nunca é só nossa.”

Sugeriu que percorresse as cidades vizinhas e descobriu que lá também depreciavam o uso e abuso de animais. “Por que eu não sabia disso?” “Talvez porque estivesse noutros caminhos, ou que negasse tanto essa verdade que a encarasse como irrealidade. Estamos aqui há tanto, e é como se não existíssemos, não para nós ou para os animais que aqui vivem em paz, mas para os outros, que parecem viver em um mundo separado do nosso, ainda que seja o mesmo.”

Olhou para uma vaca que atravessava uma vereda e mais adiante viu crianças estendendo as mãos para alimentar algumas aves, que depois dispersavam-se. Por onde olhasse, via vida. De onde vinha, também via, mas não da mesma forma.

“Aqui a vida é um sopro constante, que vislumbro incessante. A energia que vem dos outros é como conectada a minha própria. Sei que não a perderão tão cedo, ou pelo menos não fora da expectativa do seu potencial de viver, e sinto esta energia como revigorante da minha própria.”

Logo seus olhos fixaram-se nas cores, na composição dos ambientes e nos aromas verdes mais realçados do que quando de sua chegada, e viu os animais mais vívidos do que nunca.

“Sinto que continuo abrindo-me a esta nova vida.” Mirou os pés e viu seu antigo reflexo escorrendo até desaparecer. “Que se vá para nunca mais voltar”, poderia ter dito. Mas não precisou. “Foi o que trouxe-me aqui.” Sentou à sombra de uma árvore e testemunhou o viver livre da dominação que não estava só ali. “E que estenda-se tão perto quanto tão longe…”

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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