Açougue sem carne

Diante do balcão, Luiz acenou para Nino e pediu um quilo de coxão mole. Não tem, o senhor me desculpe. Como assim? Nunca faltou coxão mole aqui. Então me vê alcatra. Também não tem. Pode ser patinho. Também não. O que você tem de carne aí, afinal? Nada. Nada? Isso mesmo. Então por que diabos […]
Tazinha e a galinha Jurema

Tazinha chegou em casa e encontrou uma galinha. Ela nunca tinha visto uma de perto, a não ser descaracterizada dentro de uma panela, dividida em peito, pés, coxas e outras partes que depois de consumidas davam a impressão de que o animal reduzido a alimento jamais existiu. Com cinco anos, Tazinha não imaginava que aquele […]
Joana do matadouro

Enquanto as crianças choravam, Joana abriu a porta da geladeira e viu que não havia nada lá dentro, a não ser um pouco de água em uma garrafa pet. Ela já sabia disso, mas talvez por motivo de fé acreditasse que uma porção de alimentos pudesse brotar da porta. Ou, quem sabe, das planas divisórias […]
“Não basta tê-lo atingido, precisa ainda do corpo como troféu de sua glória”

Num raio de sol por detrás da gameleira, o safado espreita o pássaro negro dos sonhos dourados e de súbito, ao alcance da pedra da atiradeira, interrompe o glorioso voo. O pássaro cai dos céus e para a sombra do rasteiro e sorrateiro. Cambaleia, tenta voo e não consegue sair do chão. Surge a surpresa […]
Por que o pai matou a galinha?

Hugo testemunhou o pai matando uma galinha no quintal. Nunca tinha visto aquele animal com vida. Achava que galinhas já nasciam mortas. Chorou quando viu a pequena ceder com o pescoço destroncado. O pai olhou para o menino. Não disse nada. Entrou em casa e pediu para que a esposa limpasse a galinha e preparasse […]
O leite de clemência

Como fazia todos os dias, Eugênio acordou bem cedo no sábado para ordenhar Filomena, uma vaca baixinha que aprendeu, por força do tempo, a aceitar o seu próprio destino – servir como fonte de renda para um produtor rural. Eugênio já não amarrava mais a corda no pescoço de Filomena, porque há mais de um […]
Tião e Tonho

O menino viu o pai entrando no barracão com uma faca. No cabo, um pedaço de fita isolante. Era com ela que fazia tantos bichos gritarem antes de desaparecerem, deixando um curto rastro de sangue grosso. Tão grosso que se misturava à terra e se transformava num caminho, caminho para lugar nenhum. Tião se esforçou […]
O leitãozinho da vitrine

Na semana de Natal, a fila do açougue parecia não ter fim, quase encostando em uma distante parede branca, onde centenas de pacotes de cereais preenchiam os expositores. Pessoas e mais pessoas compravam imensas quantidades de carne. “Me vê vinte quilos de costela!”, “Quero dez quilos de costelinha de porco!” Ah! E também sete quilos […]
A primeira vez de Rubinho no açougue

Rubinho foi ao açougue pela primeira vez. Nunca tinha visto nada parecido. No seu ideário meninil, o açougueiro não fatiava partes de animais, era como um mágico que concebia a carne a partir de dotes sobrenaturais. Bastaria reunir alguns ingredientes, e voilà, assim surgia a carne, corada e sem violência. “Falaram que a carne de […]
A parábola de Janko

Janko viajava de vila à vila, cidade à cidade. Mesmo sem residência fixa, não carregava malas nem sacos. Afirmava que não tinha história, que o presente era o que deveria ser considerado. Dormia ao relento do alheado relento, nos alcantis ou no topo das árvores, onde poderia sentir a flama da comunidade. Chegava sempre silente. […]