Tem sangue na seção de laticínios

Faz esforço pra entender como vê o que ninguém vê e de onde vem o próprio desagrado

Arte: Revers Lab

Passeia pela seção de laticínios do supermercado. Olha dum lado ao outro, e há tanta diversidade que vê-se incapaz de ler o que diz lá na ponta. Distraído, retoma atenção de seu próprio lado quando alguém esbarra numa garrafa de iogurte que deita ao chão.

O líquido branco vaza e ganha filetes vermelhos como sangue. Estranha e pensa em polpa de fruta vermelha, do tipo que pode-se misturar ou não para alterar cor, mas quando pega a garrafa não há nada sobre frutas no rótulo, nada que seja vermelho. “Veja só, como pode?”, fala sozinho, atraindo olhar enviesado.

Mais um produto cai. É um pote de cream cheese e gotas vermelhas pingam no chão. Escuta até o som do atrito no piso e ignora a percepção. “Hoje é o dia dos distraídos?”, pergunta-se sem externar. Num canto, ricota e minas frescal estão embalados a vácuo.

Não caem no chão, mas têm líquido vermelho, mais ralo de um lado e mais grosso do outro. Balança um pouco e fica mais vermelho, e não só isso, gruda no branco do queijo, e o queijo deixa de ser branco e vai avermelhando até sumir com o branco.

“Olhe! Olhe! Olhe!”, diz a um repositor de produtos. O rapaz devolve o olhar sem entender. “Você vê que esse queijo não é mais branco?” Ele balança a cabeça, concordando sem concordar, e sai de perto.

Um pote de queijo cottage também faz ploft, mas não cai no chão. “Como pode? Cair sem cair?” Sente cheiro gorduroso, ferroso e da má impressão faz momice, movendo a língua com desgosto, que parece pesar dentro da boca.

“E essa muçarela estriada, com risquinhos estranhos, que parecem veias salientes? De onde saíram? Será produto estragado de algum lugar que sabe se lá?” Olha ao redor – é como se estivesse só.

Faz esforço pra entender como vê o que ninguém vê e de onde vem o próprio desagrado. Coça os olhos e conclui que talvez seja cansaço, estresse ou esgotamento.

Então lembra de um vídeo que viu no início da semana. Apesar da forte impressão, é como se tivesse desaparecido de sua memória. “E volta agora sem avisar?”, observa. “O que são vaca e bezerro senão expirantes de nossa vontade? Como vampirizamos suas vidas – foi o que disseram.”

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