
Quando parou de alimentar-se de animais, a percepção sobre a vida, o mundo e questões tão importantes mudaram. Observava o reflexo no espelho e não reconhecia diferença, mas por trás dos olhos era como se tudo fosse renascimento. “Não me reconheço no ontem. Sei quem fui, mas é como se tal sujeito tivesse se destacado de mim como uma daquelas crianças de cartolina de mãos dadas, com versões que saem da nossa frente para que possamos nos ver.”
Saiu de casa e vagueou pelas ruas, assistindo movimentação. “Será que quantos de vocês compreenderiam isso? Quantos não zombariam de minha decisão?” Olhava para as pessoas que o ignoravam como se ali não estivesse, ou estranhavam seu olhar de contemplação e dúvida. “Mas que importa tal consideração? E se importar, prefiro acreditar que logo mais muitos a terão, até que se estenda a todos vocês. Por que não?”
De repente, quis ver os animais que já não comia. Dirigiu aos primeiros campos fora da cidade e observou bois pastando. Era a primeira vez que abria bem os olhos para admirá-los. “Meu apetite fechava-me os olhos e, na vergonha que não reconhecia, preferia ignorá-los. Ou se os olhasse, julgava que eram doutro tipo, do tipo que gente não come, e que ficam ali por toda a vida como enfeite de pastagem. Que sandice, não?”
Enquanto um novilho alheio mastigava porção de capim-marandu que raleava, quis tirá-lo dali, não somente ele, mas todos os animais que imaginava que virariam produtos ou fontes de produtos. Concluiu que a satisfação do novilho, que não parecia infeliz, se realmente existisse, era tão singular quanto curta. “Por quanto tempo estará aqui?” E sentiu subitânea tristeza.
“Como gostaria que um novo mundo se abrisse agora para onde você e todos os outros pudessem partir.” Esfregou os olhos e continuou a falar ao boi. “Olhe, o mundo vai mudar, vai sim, e bárbaro será aquele que olhar para um boi com apetite, ou, mesmo que não olhar, quiser alimentar-se dele.”
O novilho continuou na mansidão, e ele, na mesma propriedade, viu uma placa de madeira fixada na entrada com a imagem de uma criança e um lembrete de que animais não são alimentos. “Não disse que o mundo está mudando? Está sim…”
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