Turguêniev: “No animal e no homem, se partilha o mesmo temor pela vida”

"Nós não somos um animal e um homem que trocam olhares"

“São pares de olhos idênticos, concentrados um no outro” (Acervo: Getty Images)

Nós dois no quarto: meu cão e eu. Lá fora, uiva uma terrível e desenfreada tempestade. O cão está sentado à minha frente, e me olha direto nos olhos. Eu, também, observo seus olhos. Quer me dizer alguma coisa.

Está mudo, sem fala, não entende a si mesmo, mas eu consigo entendê-lo. Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento, e entre nós não há a menor diferença.

Somos idênticos; em cada um queima e brilha a mesma pequena e trêmula chama. A morte surgirá como uma onda cobrindo esta chama com suas asas largas e álgidas. E fim! Quem então pode discernir qual centelha brilhou em cada um de nós?

Não! Nós não somos um animal e um homem que trocam olhares. São pares de olhos idênticos, concentrados um no outro. E em cada um destes, no animal e no homem, se partilha o mesmo temor pela vida.

“Февраль” ou “Sobaka”, ou “O Cão” ou “O Cachorro”, de Ivan Turguêniev (1818-1883), publicado em 1878. Turguêniev conquistou grande visibilidade após a publicação da coleção de contos “Записки охотника” ou “Zapiski Okhotnika”, que no Brasil recebeu o nome de “Memórias de um Caçador”.

A obra considerada emblemática do realismo russo até hoje é apontada como grande influência para a Reforma Emancipadora de 1861, que libertou 23 milhões de campesinos russos da condição de servos dos boiardos (aristocratas). 

Mas provavelmente a obra mais famosa de Ivan Turguêniev, a quem Nabokov considerava superior a Dostoiévski na literatura russa, seja ainda “Pais e Filhos”, que desponta como um dos mais importantes romances eslavos do século 19.  

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