Depois de mais de 24 horas na carroceria de um caminhão, fica uma semana dentro do navio parado. Com idade equivalente à de um adolescente, parte sem família – 21 dias de viagem. Que calor! E sua dor ninguém vê.
As fezes se acumulam de tal forma no corpo que é como segunda pele, cascuda. Parece que vira tipo desconhecido de bicho. Já carrega estranhas pedras pelo corpo – tudo que acumula no lombo e em outras partes vira peso extra.
Alguém diz que é doença, que altera até a maneira de andar. “Que estranha saliência…” “Será que não?” Mas pode-se chamar também indiferença e ganância de doença? Milhares, e todos ali pra morrer noutro lugar. “Mas todo mundo aguenta?” Claro que não.
Morrem pelo caminho, corpos somem, relações se desfazem e ninguém chega a saber quem é quem. “É como se agora não valessem nada.” E antes valiam? “Só dinheiro.” Tem boi que vê corpos idênticos sem vida – sem mexer, sem reagir. Não aguenta. Viagem é dura. “Não é pra todo mundo.”
Um moedor reduz formas – vira massa estranha. Quem diria que era boi? “Pelo menos liberou algum espaço no navio.” E sua vez? Quando será? Luta pra sobreviver, mas é desigual, fora de controle. Um boi no navio é só outra unidade no bolso de alguém.
Depois de 21 dias, com a embarcação mais leve pelas mortes e mais pesado pelo acúmulo de dejetos grudados no corpo, é banhado e judiado. Presente de resistência. Acha que não dói arrancar coisa grudada no couro?
E a culpa não é sua. Quando sente o sol queimar o topo da cabeça é empurrado pra dentro de outro caminhão. Acham que “já tem idade boa”.
Quatro ou cinco horas mais tarde, vê o próprio sangue no chão – “sem insensibilização”. Um corte em forma de meia lua, três vasos atingidos e 17 litros vermelhos. É só mais um sobrevivente que morreu.
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