Kevin Johnson: “Os defensores dos animais levantam questões que atacam nossas concepções de nós mesmos”

"Questões que desafiam alguns dos aspectos mais íntimos de nossas vidas diárias"

Kevin Johnson, ativista dos direitos animais condenado a três anos de prisão em fevereiro de 2016 por libertar dois mil visons (Imagens: RT News)

“Meu amigo Tyler [Lang] e eu invadimos uma imunda fazenda de peles no norte de Illinois e soltamos dois mil visons de suas gaiolas apertadas para salvar suas vidas. Aproximadamente um ano depois, um homem em Fresno, Califórnia, entrou em um galpão da Foster Farms e espancou novecentos frangos até a morte com um taco de golfe. Enquanto esse homem foi condenado a 120 dias na cadeia do condado, tive que enfrentar [a possibilidade de] dez anos em uma prisão federal.

Isso é ainda mais intrigante porque, além do meu ativismo não violento, eu levava uma vida relativamente simples. Morava a meia hora da casa onde cresci. Era o pai orgulhoso de um cão adotado em um abrigo. Tinha planos para jantar com minha mãe às quintas-feiras. No entanto, de acordo com o FBI, sou um terrorista, condenado por uma lei denominada Animal Enterprise Terrorism Act (AETA).

O governo federalizou um crime de propriedade e o rotulou como terrorismo, baseando-se unicamente no conteúdo das crenças sociais e políticas dos réus. Tenho um interesse particular no assunto, mas isso deveria ser de interesse de todos nós, independente de seus sentimentos em relação aos direitos animais.

As pessoas muitas vezes me perguntam como libertar visons e raposas do perigo poderia ser considerado um crime tão sério. Para ser sincero, não acho que essa pergunta possa ser respondida sem olhar para a mensagem que ações como essa tendem a transmitir.

Os defensores dos animais levantam questões que vão além dos lucros de uma indústria específica. Questões que atacam nossas concepções de nós mesmos como seres humanos e das sociedades que construímos. Questões que desafiam alguns dos aspectos mais íntimos de nossas vidas diárias, até nossas escolhas alimentares.

Quando compreendemos que os animais são indivíduos únicos com seus próprios pensamentos, sentimentos, medos e apegos como os nossos, será que devemos continuar atribuindo-lhes o status legal e social de propriedade? Deveríamos continuar a participar da inerente, horrível e indizível violência de se criar bilhões deles para serem mortos por ano?

A AETA não existe porque o governo está profundamente preocupado com o perigo representado pela libertação de pequenos mamíferos do cativeiro. Ao desacreditar e marginalizar aqueles que agem a favor dos animais, em última análise, procura marginalizar e invalidar as preocupações éticas que incitam tal ação.

Mas as indústrias sempre desejam marginalizar aqueles que chamam a atenção para a injustiça, e, imagino, adorariam criar leis antiterrorismo para cada movimento de indivíduos preocupados que eles considerem ameaçadores.

Todos nós sabemos que o agronegócio, empresas farmacêuticas e fazendeiros de peles – aqueles que elaboraram e fizeram o lobby para a AETA – estão mais confortáveis ​​quando as questões colocadas pelos defensores dos animais são ignoradas. Mas a razão pela qual tem sido fácil impor medidas tão duras quanto as defendidas pela AETA é que a maioria das pessoas se sente confortável com isso também.

Colocando em prática a ação que me levou à prisão, procurei não apenas salvar animais individualmente, mas também desafiar o conforto que permite a todos nós ignorarmos os bilhões de outros indivíduos que permanecem presos nos mesmos sistemas. Essa ação foi a minha afronta ao meu próprio conforto e indolência também. E a experiência teve um impacto profundo em mim.

Eu já vi baleias jubarte no verão antártico e cavalos selvagens brincando no alto deserto de Utah. Observei o sol nascer na Montanha Amarela. Mas nunca na minha vida testemunhei nada tão belo quanto aqueles visons que sentiram seus pés tocarem a terra pela primeira vez na noite de 13 de agosto de 2013. Espero que entre aqueles que conseguiram evitar a recaptura, seus filhos tenham tido filhos, e eu já tenha sido esquecido. Mas eu nunca vou esquecê-los, nem aquela noite, pelo resto da minha vida.

“Um Desafio Pessoal”, de Kevin Johnson, ativista dos direitos animais condenado a três anos de prisão em fevereiro de 2016.

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