Crise climática e pandemias podem fazer confinamento virar rotina

Carlos Nobre: “Temos que aproveitar a saída da crise pandêmica para colocar o Brasil cada vez mais em trajetórias de sustentabilidade”

Incêndios na Austrália associados às mudanças climáticas a partir de setembro de 2019 geraram perda de 10,7 milhões de hectares em florestas – matando mais de um bilhão de animais (Foto: EPA)

Durante um seminário online realizado ontem (14) pela Rede Brasil de Pacto Global, o cientista brasileiro Carlos Nobre, copremiado com o Nobel da Paz em 2007 e referência global em mudanças climáticas, abordou a relação entre o coronavírus e a crise climática.

Nobre, que é presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, deixou claro que se o avanço do aquecimento global, cada vez mais agravado pelas grandes emissões de gases do efeito estufa, não for freado, o cenário pode ser ainda menos auspicioso, porque como consequência de piores condições de temperatura e umidade, as pessoas serão obrigadas a evitarem cada vez mais ambientes externos – tornando o confinamento uma regra, assim como já tem acontecido em decorrência da covid-19.

Relação entre coronavírus e mudanças climáticas

Pandemias como o coronavírus, por exemplo, tem sua origem associada às causas das mudanças climáticas, já que também é consequência do impacto de atividades humanas relacionadas à destruição de habitats por meio do desmatamento – como agropecuária e mineração – entre outras atividades prejudiciais ao meio ambiente.

Afinal, quanto mais degradamos espaços naturais para dar lugar a essas atividades, mais favorecemos um ambiente instável que pode ser um propiciador de novas pandemias. Nesse cenário, há um fator de grande contribuição às mudanças climáticas em consequência de mais emissões de gases do efeito estufa ao mesmo tempo em que há diminuição da capacidade de absorção de carbono.

Cientista defende um Brasil mais sustentável 

Carlos Nobre disse que não há outro caminho para evitar um futuro em que tenhamos que nos manter cada vez mais confinados que não passe pela busca de uma economia mais verde. “Temos que aproveitar a saída da crise pandêmica para colocar o Brasil cada vez mais em trajetórias de sustentabilidade.”

O especialista em doenças infecciosas David Quammen também já enfatizou que o momento é de mudanças radicais na nossa relação com o mundo outras espécies.

Ou mudamos ou teremos mais doenças zoonóticas

“Estou absolutamente certo de que haverá mais doenças como essa no futuro se continuarmos com nossas práticas de destruição do mundo”, frisou ao Independent. Quammen é da opinião de que se colocarmos o covid-19 sob controle, precisamos começar a pensar no próximo vírus.

Carlos Nobre também rebateu a crença de que o coronavírus não sobrevive em temperaturas mais quentes, como tem sido dito em alguns meios no Brasil. Ele citou como exemplo os casos de contaminação em Manaus.

O cientista ainda comparou a região amazônica com a região de Wuhan, na China – porque as duas partilham de fatores ambientais de risco, ou seja, a ocupação desordenada das áreas a partir de atividades humanas que impactam na vida silvestre – um cenário perfeito para o surgimento de zoonoses.

Contra o aquecimento global e destruição do mundo natural

Os principais cientistas ligados à ONU continuam defendendo que o surto de covid-19 foi um alerta, já que existem muito mais doenças letais na vida selvagem, e que a civilização atual está “brincando com fogo”. A organização também partilha o entendimento de que é o comportamento humano que faz as doenças se espalharem para os seres humanos, não os animais.

Para evitar novos surtos, apontam os especialistas, o aquecimento global e a destruição do mundo natural visando agropecuária, mineração e habitação precisam acabar, já que forçam um perigoso contato entre vida selvagem e humanos.

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