Crueldade em Brotas (SP) também é sobre consumo de leite e queijo

Enquanto animais forem vistos como produtos ou fontes de produtos, suas vidas, e a duração delas, serão apenas um negócio

Dizer que “morre naturalmente” não faz o menor sentido quando um animal não tem uma “vida natural” (Foto: G1/Fábio Rodrigues)

Sobre a crueldade envolvendo as mais de mil búfalas na Fazenda da Água Sumida em Brotas (SP), onde foram abandonadas para morrer, e dezenas realmente faleceram já que estavam muito debilitadas, é importante não ignorar que eram animais criados para produção de leite.

No entanto, com a mudança de objetivo do pecuarista Luiz Augusto Pinheiro de Souza, que decidiu investir no plantio de soja destinada à produção de ração animal, manter esses animais vivos passou a ser visto como um problema. Como resultado dessa desconsideração pela vida das búfalas, ele achou mais conveniente deixá-las morrer. E isso, sem dúvida, aconteceu por causa de sua percepção de que animais não são criaturas de direitos.

Ontem (28), o Fantástico divulgou imagens de Souza dizendo que não deixou as búfalas morrerem, negando culpa sobre a situação dos animais que foram encontrados até roendo árvores, no desespero pela sobrevivência. “Morre numa época naturalmente no ano. Quando morrer, morreu”, disse. Acredito que somente essa citação já deveria instigar reflexão sobre a produtificação animal.

Dizer que “morre naturalmente” não faz o menor sentido quando um animal não tem uma “vida natural”. Afinal, é submetido a um sistema de produção e a duração de sua vida é baseada nisso. E quando torna-se economicamente inviável mantê-lo vivo, é descartado ou enviado ao matadouro.

A colocação “morrer, morreu” também é muito usada quando alguém quer manifestar indiferença ou enfatizar desimportância em relação à morte de alguém. Isso deixa claro também o valor atribuído à vida desses animais. Ou seja, que fora de um plano econômico é nulo.

“É gado velho que já está com algum problema”

O proprietário da fazenda disse ainda que os “animais estão morrendo porque é gado velho que já está com algum problema”. Mas, mesmo que fosse verdade, se essas búfalas desenvolvem tais problemas é em decorrência do que? Do sistema ao qual são submetidas, já que a vida delas ocorre inteiramente no contexto da pecuária leiteira.

Então não há como dissociar produção e consequência. Além disso, não faz sentido chamar as búfalas de animais velhos, já que animais não envelhecem na pecuária. E mesmo que envelhecessem, isso significaria que não merecem cuidados?

Para mim, a história em Brotas (SP) não é sobre um caso isolado de crueldade animal. Nem deveria chamar atenção somente pra isso, mas para a forma como os animais não humanos são tratados e vistos em um contexto de produção e consumo. Afinal, são vidas que terminarão quando deixarem de proporcionar lucro.

Ainda que essas bubalinas não tivessem sido abandonadas, suas vidas chegariam ao fim no momento em que não proporcionassem mais retorno financeiro. Afinal, são vistas apenas como fontes de produtos e, assim que “a fonte seca ou torna-se pouco vantajosa”, a morte é o destino desses animais.

E claro, há aqueles que desenvolvem problemas de saúde, o que na maioria das vezes também é favorecido por esse sistema, já que suas vidas são condicionadas a ele. Então, em qualquer cenário, não vejo como não atribuir responsabilidade ao sistema de produção pelo que ocorre com esses animais.

Enquanto forem vistos como produtos ou fontes de produtos, suas vidas, e a duração delas, serão apenas um negócio, que termina no momento em que quem os cria considera mais oportuno.

 

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