Por que Leandro Karnal se incomoda tanto com quem critica a exploração animal?

Quantas transformações teriam ocorrido no mundo se acreditássemos que tudo é aceitável se é sobre “ser feliz com sua escolha”, por mais arbitrária que seja essa escolha?

Imagens: Tras Los Muros/CNN Brasil

Leandro Karnal publicou o seguinte sobre as coisas que “ele gostaria de ver antes de sair deste mundo”: “8. Uma pessoa adota um cachorrinho. Outra prefere comprar em um canil. Alguém adere ao mundo vegetariano. Outra come carne […]. Todos são felizes com suas escolhas. Ninguém ‘torra’ ninguém. Desaparece o projeto missionário de converter o outro aos seus valores. Ninguém mais assume o papel de zelador da vida alheia. A vida do outro passa a ser… do outro. Um sonho antes da minha partida.”

Em um país onde há mais de vinte milhões de cães vivendo nas ruas, é sensato dizer que não há nada de errado em comprar cães? E para alguém comprar um cão é porque alguém está lucrando com essa venda, logo isso significa submeter animais à instrumentalização – geração de filhotes para lucro.  Não por acaso as cadelas usadas para esse fim são chamadas de “matrizes”, mesmo termo utilizado para as fêmeas usadas para procriação na pecuária.

É questionável a ideia do “ser feliz com sua escolha” quando envolve sofrimento e morte de animais, porque isso é uma escolha (humana) a partir de uma ausência de escolha (não humana). Reflita se para os animais que serão consumidos tem o mesmo peso uma pessoa não se alimentar de animais e outra se alimentar de animais.

Quando é dada ao animal a chance de escolher entre continuar vivendo ou morrer? Quem duvida que nenhum animal escolheria a morte para que um humano “seja feliz com sua escolha”?

Não é de hoje que Karnal tem insistido nessa crença de que criticar o consumo de animais é “torrar alguém”. É uma percepção reducionista e unilateral que ignora a importância da vida para quem dela será privado por escolha humana. Afinal, reforço, o que ele chama de escolha é baseado na escolha que o animal submetido a um interesse de exploração e consumo não tem.

Portanto o problema está na empatia seletiva, no olhar para a predileção humana e na indiferença em relação ao fim imposto ao não humano. Rejeito essa percepção minimizadora de “mera escolha”, como se fosse algo que não envolvesse um impacto que não pode ser dissociado de uma realidade tão comum e irrefletida de miséria não humana.

Quantas transformações teriam ocorrido no mundo se acreditássemos que tudo é aceitável se é sobre “ser feliz com sua escolha”, por mais arbitrária que seja essa escolha?

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Uma resposta

  1. Karnal, Cortella, Monja Coen, Pondé então nem se fala: sabem que uma declaração a favor dos animais e do veganismo pode refletir negativamente na compra de seus livros e no tratamento que alguns veículos de comunicação dão aos seus trabalhos.
    Ao afirmar coisas como essa, ele só reafirma e reforça a ilusão liberal (e falida) da liberdade de consumo = liberdade de escolha.

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