Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Como uma escolha linguística pode atrapalhar a disputa por um novo senso comum livre da exploração animal

Por que não é uma boa ideia usar o termo feito de plantas

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos livres da exploração animal. No entanto, esse uso é impreciso e na verdade pode fazer sentido somente entre veganos ou pessoas que já estão familiarizadas com o termo e seu contexto. Para muitas outras pessoas, “feito de plantas”, que é usado como uma reducionista alternativa à plant-based, pode não evocar nada de positivo.

O motivo é que não temos uma cultura dominante em que as pessoas associem diretamente plantas com algo desejável e muitos não associam nem mesmo com a alimentação. Já quando falamos que algo é feito de vegetais, a compreensão é mais clara do que dizer que é “feito de plantas” – porque vegetais já estão consolidados como parte da alimentação e não geram esse choque cultural que pode ser uma barreira mais proeminente. Afinal, eles já estão semanticamente inscritos, em variável proporção, nas experiências cotidianas de consumo.

“Planta”, no contexto cultural brasileiro, comumente tende a ter uma conotação muito mais específica e botânica. Soa como se alguém estivesse falando de algo que não tem nada a ver com o que se come e menos ainda com o que se deseja comer. Mesmo quando há uma associação com algo que pode ser usado na alimentação, as primeiras associações não são essas. Ignorar isso também é perder a oportunidade de construir pontes em que a normalização depende da convergência de processos culturais de inclinação e identificação.

Além disso, é uma aposta que não ameaça o habitus (Bourdieu) dominante porque opera também a estranheza de uma tradução cultural incompleta. Portanto, é como apostar em um ruído semântico como expressão de nicho, e que não dialoga com as transformações necessárias para desestabilizar a hegemonia cultural (Gramsci) especista, que é expressão do senso comum.

Assim, é uma aposta que tende a ressoar em uma bolha de iniciados para quem o sentido de planta é ressignificado, mas que tem em sua gênese a impossibilidade de se tornar senso comum porque ainda opera a “língua da diferença”, que reflete um constante estranhamento. Já usar “feito de vegetais”, “à base de vegetais” ou “100% vegetal” realiza a convergência cultural. Não exige algo tão visceral quanto ressignificar um termo. É possível se apoiar em uma associação já existente e positiva (saúde, natural, etc.) – algo que defendemos que deve ser feito quando o que se oferece realmente condiz com essa conexão.

Isso, como parte de um trabalho cultural mais amplo, permite uma infiltração no senso comum e usando os próprios materiais do senso comum para, gradualmente, contribuir para alterar seu significado e sua prática. Portanto, se com Gramsci reconhecemos que a transformação social requer a construção de um novo senso comum, uma linguagem que gera estranhamento é incapaz de se tornar senso comum. Ela marca fronteira em vez de construir ponte.

Termo “feito de plantas” também é semanticamente equivocado 

Claro, é compreensível que o uso de “feito de plantas” tenha um propósito conscientizador (“repensar o que é comida”). No entanto, essa é uma aposta de alto risco que prioriza o choque (muitas vezes gerando rejeição) em detrimento da assimilação – porque já chega antagonizando o habitus sem uma sólida mediação cultural prévia. É por isso que tende a ecoar positivamente quase que somente entre “iniciados”.

Portanto, devemos nos perguntar sempre qual linguagem tem maior poder de convencimento e normalização para o maior número de pessoas que queremos envolver em uma mudança e levando em conta os sentidos que refletem o “normal” do habitus dominante.

Ademais, o termo “feito de plantas” também é semanticamente equivocado porque não faz sentido usá-lo para se referir a alimentos baseados em ingredientes que surgem a partir de plantas, mas que não são as próprias plantas. Isso cria uma confusão mental para o consumidor – que pode achar que isso é feito de algo estranho e desconhecido; ou não apenas não querer comer como se perguntar até mesmo se isso é algo que alguém deveria comer.

Essa adoção do “feito de plantas” no meio vegano surge também como uma ideia de “empoderamento”, e que é muito explorada dessa forma, mas acaba ecoando mais o vegano na reafirmação de uma validação semântica que ecoe dentro do seu próprio grupo do que fora. Afinal, não adianta defender o “feito de plantas” se o termo não tem força para superar um signo como reflexo de uma cultura dominante que está muito acima dele e que não pode ser ameaçado de forma superficial – com algo que ainda soa estranho e até comumente não comestível.

Alguém pode até dizer que “feito de plantas” soa “mais transformador”. Mas isso seria a rendição ao “romantismo da margem”. É preferir o gesto de rebeldia simbólica à ação com potencial. Há também quem defenda o “feito de plantas” como parte de uma abordagem pragmática – exatamente por achar que é um termo “neutro”, menos “carregado” do que “vegano”, quando na verdade, não há como ser pelos motivos já problematizados. Afinal, a ideia de neutralidade é uma ilusão semiótica. Logo, defender o “feito de plantas” em um contexto alimentar como o brasileiro é aceitar que sua mensagem seja um marcador de identidade para poucos.

Por outro lado, um termo mais preciso como “vegetal” pode ser uma ponte educativa. Pode levar pessoas a pensarem: “Ah, então isso é feito de grãos, legumes, coisas que eu já conheço”. Enfim, não gera a confusão e a opacidade do “feito de plantas”, que soa como se apagasse essa transformação e como se estivéssemos triturando folhas, caules e raízes de uma planta inteira, o que (com raras exceções) não é verdade. É uma imagem mental que afasta, não atrai. O consumidor médio, ao ler “feito de plantas”, pode ter um momento de pausa: “O que isso significa? É saudável? É comestível mesmo?” Esse questionamento é um atrito a mais.

Por que é melhor falar em “feito de vegetais” ou “à base de vegetais” 

“Feito de vegetais” ou “à base de vegetais”, claro, também é tecnicamente mais preciso no contexto culinário. “Vegetal” já é um termo que dialoga mais com o senso comum, porque reflete as partes comestíveis do reino vegetal: frutos, grãos, folhas, sementes, raízes, etc. Ele, ainda que enfrente limitações, carrega em si a ideia de ingrediente alimentar, não de organismo botânico inteiro.

Se o objetivo é dialogar com um nicho e fechar-se nele, não há problema algum em insistir no “feito de plantas”, mas se for para ir além, é preciso pensar na conexão com o habitus dominante e como encontrar brechas, como sugerido por Martín-Barbero na teoria das mediações culturais. Assim, nesse caso, o maior potencial está na conexão com o repertório existente, ou seja, com o vocabulário.

Diferentemente do “feito de plantas”, o “feito de vegetais”, assim como seus análogos semânticos, opera na lógica da mediação. Ele reconhece e se insere no fluxo de sentidos já estabelecido (vegetal = comida, saúde…). É um ato de conversa a partir de um terreno comum. Insistir em “feito de plantas” para um público amplo é ignorar a teoria das mediações culturais.

A “brecha” que Martín-Barbero nos ensina a buscar não é um vazio, mas um ponto de convergência e tensão dentro do habitus dominante. No Brasil, a brecha não é a “planta”, é o “vegetal”. O brasileiro já tem uma relação (mesmo que conflituosa) com vegetais. “Feito de vegetais” conversa com essa memória, com esse repertório. É uma mediação que trabalha com o material simbólico já disponível.

Vegetais estão no prato desde a infância, mesmo quando tratados como de menor importância – ainda que sejam os responsáveis pela maior parte das calorias diárias consumidas. E sabemos que essa percepção vem com uma naturalização do vegetal em que já não se pensa o vegetal como vegetal – como alimentos como cereais, grãos, etc.

Logo, o que também podemos fazer é mostrar a importância dos vegetais e como eles não são apenas a “salada” que acompanha o almoço ou o jantar, mas quase tudo aquilo que consumimos que não é de origem animal. Portanto, o vegetal está inserido em um contexto onde seus sentidos precisam ser explorados em relação com um novo nível de normalização. Assim, teremos uma nova normalização sobre uma precedente normalização – mas uma que já não se limita a ocupar um espaço secundário na ideia da hegemonia cultural.

Enfim, para mudar a cultura, é preciso falar a língua da cultura, não a língua de um nicho. É preciso também entender os símbolos, as nuances, os afetos das pessoas – não para confirmá-los em seu antropocentrismo, mas para encontrar os pontos de fissura por onde uma nova ética antiespecista possa infiltrar-se e transformar o senso comum.

Observação final 

Mesmo o termo plant-based, que també pode ser problematizado, tem um apelo melhor do que “feito de plantas”, porque, ainda que seja um estrangeirismo, tem um efeito psicológico que pode se associar à curiosidade e não somente a um direto estranhamento ou rejeição. Por outro lado, “planta” é uma palavra vernácula com significado concreto, literal e limitado. Ela não abre uma porta, ela cria uma imagem mental imediata (e muitas vezes até absurda). Assim, o estranhamento não gera curiosidade intelectual; gera rejeição sensorial (“não vou comer mato”). A conversa morre antes de começar. Portanto, “plant-based“, por mais importado que seja, e é preferível que tenhamos um caminho próprio, que reflita nossas especificidades, tem a vantagem de que seu próprio estranhamento pode suspender o julgamento imediato. Já “plantas” é uma tradução que mata a mensagem, porque ativa associações culturais erradas e fecha a porta.

No imaginário comum brasileiro, “planta” não é sinônimo de “comida”. É sinônimo de ornamento (vaso), jardim, mato, paisagem, algo que se cultiva sem que se coma. A expressão “não coma, é planta!” para crianças é comum. Associar “planta” diretamente a “alimento” exige um salto cognitivo que a maioria não está disposta a dar, porque contradiz o senso comum (habitus/hegemonia) arraigado. Isso pode reforçar a estranheza – colocar o prato vegano em uma categoria à parte, “a comida feita daquilo que normalmente não é comida”. Isso afasta por estranheza.

Ademais, a imagem mental do “mato” ou da “planta ornamental” é antagônica à ideia de sabor, conforto e prazer alimentar. A mensagem subliminar é: “você vai ter que comer coisas estranhas”. É uma barreira afetiva enorme. Isso expõe também um descolamento porque mostra que quem usa o termo pode querer mais estar conectado com um jargão de nicho globalizado do que com a psicolinguística do seu próprio público. Como efeito, há um sinal de que se fala para a bolha, não a partir de uma compreensão da cultura que pretende transformar.

Enquanto o movimento não dominar a arte da tradução cultural – encontrar as palavras, imagens e narrativas que ressoam no senso comum brasileiro, sem soar como um experimento botânico –, ele sempre parecerá um pouco estrangeiro, um pouco estranho e, portanto, um pouco ameaçador ou pouco desejável. A batalha pelo prato do brasileiro envolve também o significado das palavras que usamos para descrevê-lo. Afinal, a linguagem é o tecido primário da cultura. A hegemonia se manifesta no senso comum, e o senso comum é feito de linguagem. Portanto, disputar o significado e a eficácia das palavras é disputar a própria matéria-prima da hegemonia.

Vale ressaltar também que isso não quer dizer que a transformação virá com essa mudança, e sim que ela integra uma estratégia em conexão com um projeto de mudança cultural mais ampla. A disputa semântica não é um fim, mas um meio tático. Ela só adquire sentido enquanto parte integrante de um projeto estratégico muito mais amplo: a longa e complexa batalha pela construção de uma nova hegemonia cultural, em que a alimentação livre da exploração animal deixe de ser “alternativa” para se tornar parte do senso comum.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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